Quando uma vez por outra nos era concedido ir passar o serão n'uma casa amiga, o que nós faziamos, as creanças d'esse tempo, era entretermo-nos em adivinhações e joguinhos de prendas, a um canto do salão ou em qualquer outra sala onde os adultos não estavam.
As pessoas crescidas, como nós lhes chamavamos, dançavam, jogavam o whist, o voltarete ou conversavam simplesmente.
Os homens fallavam de politica: fallava-se muito n'aquelle tempo do marechal Saldanha, o heroe da Regeneração; principiava a fallar-se de Fontes Pereira de Mello, o ministro novo,—o ministro janota.
As senhoras fallavam de criadas e modas, como agora, como sempre.[{82}]
Não foram os adultos que mudaram moralmente, porque o thema de suas conversações continua a ser o mesmo,—para os homens a politica, para as senhoras as modas e as criadas: quem mudou foram as creanças.
Lembro-me muito bem de algumas adivinhações que então nos entretinham, pela maior parte difficilimas,—exemplo:
Serra na cabeça,
Foucinha no rabo.
Adivinha, tolo,
Que é gallo.
E esta, egualmente difficil:
Uma velhinha,
Muito encorrilhadinha,
Encostadinha
A uma tranquilha.
Passa, asno,
Passa é.
Adivinha o que isto é.
E ainda outras mais, todas do mesmo theor.