Confessem francamente se isto não costuma ser assim? Ora aqui está porque eu disse ha pouco que todas as festas trazem o seu cortejo de contrariedades.

D'esta vez, na Ericeira, todos os adultos se comprometteram a não ter enxaquecas nem telegrammas. E todas as creanças prestaram juramento solemne de não entalar os dedos na portinhola do char-à-bancs.

Partimos alegremente, cerca de quarenta pessoas, para o pic-nic, para a Foz, que fica a pequena distancia da Ericeira, e que se chama assim porque alli entra no mar, depois de haver descripto varios torcicollos, a ribeira de Porto.

O sitio todos nos o conheciamos.

Pittoresco, em verdade. O rio contorce-se dentro[a]{92}] do areal e interna-se pela terra passando por entre margens onde a vinha parece sorrir verduras ao abrigo das fragas.

Alli a dois passos, o mar, o mar franjado de espumas rebentando na areia.

Sitio delicioso! De mais a mais, nada nos havia esquecido. Fôra n'um carro de bois o barco em que deviamos deitar as redes; foram as redes; foram os bellos pitéos que cada um se encarregou de levar. Não havia esquecido nada; n'uma palavra, nada!

Mas, chegámos lá, e vimos que faltava uma coisa, que aliás a ninguem havia lembrado! E essa coisa era realmente indispensavel, imprescindivel. Essa coisa era... a sombra!

Sim! Havia o barco, as redes, o jantar, boa disposição, mas faltava unicamente a sombra.

Então, sobre a praia batida pelo sol, principiamos a procurar impacientemente, avidamente aquillo que nos faltava e de que todos se haviam esquecido: a sombra!