Nada d'isso.

Era apenas um suicida, que já por mais vezes havia attentado contra a existencia, e que d'aquella vez sonhára despenhar-se no infinito...

Se a policia não acode tanto a tempo, Infante teria tido que luctar com o homem dentro da barquinha ou, se elle houvesse podido suicidar-se, teria que livrar-se da suspeita de um crime.

Da Italia passou a Constantinopla, onde o governo do sultão lhe não consentiu que fizesse ascensão alguma. Todos os esforços que empregou, durante muito tempo, foram baldados. Não podendo elle proprio fazer um espectaculo, contentou-se com vêr em Constantinopla[{100}] os espectaculos dos outros. Assistiu, no pateo do palacio imperial, a uma representação dada por arabes. O sultão estava na tribuna com seus filhos, e no andar superior, atravez dos crivos das janellas, os olhares das odaliscas espreitavam avidamente...

Eu já disse que Antonio Infante é um rapaz elegante, bem posto...

Passou ao Cairo, a Alexandria, e foi dar comsigo a Marrocos, onde o sultão o recebeu de boa sombra.

Os marroquinos, incluindo o proprio sultão, viram n'elle um feiticeiro, um homem sobrenatural e, quando o encontravam na rua, diziam uns para os outros supersticiosamente:

Ua! (Elle!)

Por muito tempo imaginaram que os mystificava, e que, mandando o balão para o ar, não ia dentro d'elle. Mas os mais crentes philosophavam:

—Se o passaro voa, o homem, querendo Deus, póde voar.