Toda a familia, segundo me observou philosophicamente o supracitado guarda fiscal, tem a sua praia.
Uns atiram-se ao bulicio da Figueira, outros á aristocracia de Cascaes; estes preferem a Nazareth, talvez por causa dos cyrios, que dão muitos dias de festa; aquell'outros, mais pacatos, isolam-se em S. Martinho do Porto, e contentam-se com ir de vez em[{118}] quando, no caminho de ferro, vêr gente ás Caldas da Rainha, etc.
Eu reflecti maduramente na phrase philosophica do guarda-fiical. Effectivamente, cada familia tem a sua praia.
Uma vez, certa dama vieille roche, recebendo á sua mesa dois primos e um companheiro dos primos, lembrou-se de corrigir a falta que elles haviam perpetrado não lhe explicando genealogicamente a procedencia do companheiro. Á sobremesa, a grande dama, que se tinha desfeito em attenções com o desconhecido, fez estalar o quinau.
—V. ex.ª, disse ella dirigindo-se ao desconhecido, ainda não teve a bondade de nos dizer de que casa era!
O amigo dos primos estava descascando tranquillamente uma pêra. Ouviu a pergunta, levantou a cabeça, fitou por momentos a grande dama, e respondeu:
—Eu, minha senhora, sou da casa... da Supplicação.
Arranjou a ter uma casa, a primeira que lhe lembrou, mas livrou-se do apuro, que era a grande questão.
A respeito de praias, o que é preciso, em chegando o verão, é ter uma, seja qual fôr, boa ou má, alegre ou triste.[{119}]
Ter uma praia! eis o problema. E cada familia trata de partir, ás vezes um pouco mesmo ao acaso, porque, entrando o mez de agosto, presume-se que só ficam em Lisboa os corpos da guarnição e o D. José do Terreiro do Paço.