Tudo o mais abala.

Se eu fosse guarda barreira, havia de aproveitar a occasião do regresso dos banhistas para completar os meus estudos sobre os diversos typos da galeria das praias.

Em Lisboa todas as pessoas parecem vestir e pensar do mesmo modo. A sobrecasaca e o chapeu alto uniformisam a toilette e o espirito de cada um. Mas, nas praias, em plena liberdade de acção, cada banhista veste a toilette que quer, e exhibe com certa semceremonia as suas predilecções, as suas manias, as suas excentricidades de caracter.

Este revela-se jogador. Atira-se á roleta, á batota ou ao baccarat. Senta-se á mesa verde de lapis em punho, faz calculos mathematicos para saber quando o rei deve tornar a sahir ou quando o 36 deve voltar.

Aquelle é pescador de anzol. Passa o dia de canna na mão, sentado nas fragas por horas esquecidas, esperando, com uma paciencia que ninguem lhe suppunha, que o peixe venha picar na isca.

Est'outro, tão pachorrento e pouseiro, como todos[{120}] o conheciamos no Chiado, joga na praia o croquet todo o dia e dança a Valsa toda a noite no club.

Aquell'outro, que em Lisboa faz parte da sociedade protectora dos animaes, manifesta-se um caçador acerrimo, enthusiasta pelas perdizes, doido pelos coelhos, e loquaz chronista de anecdotas cynegeticas.

Conta historias dos seus cães, cousa que ninguem cá lhe conhecia,—nem mesmo os credores.

De todos estes typos da collecção balnear o mais tagarella e o mais imaginoso é por certo o caçador.

Elle tem sempre uma cousa extraordinaria, que lhe aconteceu, para contar.