E no cenaculo da praia, seja n'um estanco, n'uma botica ou n'uma loja de capella, é elle o habitué que tem corda para mais tempo, o caso é dar-lhe a gente a cheirar á imaginação môlho de perdiz ou deixar-lhe vêr por um oculo, n'uma referencia fugitiva, um coelho que elle logo fila para nos impingir a sua illyada venatoria.
Então, enthusiasmado, o chapeu atirado para a nuca, os olhos brilhantes, um riso de satisfação nos labios, elle falla de si, dos seus cães, da sua espingarda, das suas caçadas maravilhosas.
Ou parte logo da mentira para fazer romance ou chega lá a breve trecho. O caçador entra facilmente no paiz da fabula, o caso é haver quem ao de leve o empurre para os intermundios de Diana.[{121}]
—Eu tinha um cão, principia elle.
Até aqui póde ser verdade, posto que ninguem lh'o conhecesse, porque nada ha tão natural como ter a gente um cão... ou mesmo dois.
Mas, por via de regra, o caçador, que tem sempre a imaginação prompta, não se demora muito no prologo.
—Eu tinha um cão, continúa elle, que era... um assombro!
Aqui é que principia o maravilhoso do conto.
—Cão mais intelligente não n'o podia haver. Nem mais dedicado ao dono e á sua familia. Pobre Epaminondas!
Ao soltar esta exclamação, o caçador faz beicinho para chorar. Uma explosão de ternura envinagra os seus olhos, até ahi brilhantes e, fingindo pensar no seu Epaminondas, demora-se algum tempo soluçante, convulso.