—Homem! diz do lado o espirituoso, isso faz-me lembrar o caso da pateada tacita!
—Vocês não acreditam—prosegue o caçador fingindo-se um pouco indignado—mas eu garanto com a minha palavra de honra a exactidão de tudo quanto digo a respeito do meu Epaminondas. Pelo caminho iamo-nos entendendo como dois bons amigos. «Que te parece hoje o dia?» perguntava eu. E o Epaminondas[{124}] respondia: «Boa caçada; o dia está magnifico para as perdizes.» Ou então torcia o nariz, como a dizer: «Isto hoje não dá nada que se veja.» E depois parecia accrescentar: «Mas em todo o caso eu hei-de fazer-lhe a diligencia.» Se o cão tinha concordado comigo em que era dia de boa caçada, acontecia assim, por força. D'alli a nada não tardavam a apparecer bandos de perdizes, ás vezes até a pequena distancia de casa.
N'este comenos assoma ao limiar do estanco o boletineiro do telegrapho.
—Os snrs. não saberão dizer-me quem é o snr. Antonio do Espirito Santo Soares?
Que não: que não é conhecido.
O boletineiro vae-se embora, e o caçador prosegue:
—Se alguma das perdizes era mais gorda, eu aproveitava a occasião para fazer uma galanteria a meu pae ou a minha mulher, e mandava o cão a casa com a perdiz.
—Olha lá, dizia-lhe eu entregando-lh'a, tu vaes n'um instante a casa levar esta perdiz a meu pae. Mas toma cuidado, Epaminondas, olha que esta é para meu pae. Nada de tolices, Epaminondas!
O cão partia por alli fóra como um relampago, com a perdiz nos dentes.
Chegava a casa mais depressa do que eu o estou[{125}] dizendo, e ás vezes a primeira pessoa que encontrava não era meu pae mas minha mulher.