Como era natural, minha mulher, até para experimentar a intelligencia do cão, queria tirar-lhe a perdiz.
E o Epaminondas, como se não fosse realmente um cão, mas uma pessoa, dizia-lhe:
—Nada, não. Esta mandou-a o senhor para o pae. Logo virá outra para a senhora.
—O que?! Pois o cão dizia isso?!
—Está claro que não dizia como a gente o diz. Mas fazia-se entender de tal modo, que minha mulher deixava-o passar, e era meu pae que recebia a perdiz. Depois o Epaminondas voltava logo.
—E dizia alguma cousa?
—Dizia, sim; pelo menos eu entendia-o. «Seu pae diz que muito obrigado; mas a senhora tambem quer.» «Está bem, Epaminondas, respondia eu; logo irá para a senhora.» Ora acontecia que eu algumas vezes me esquecia do compromisso que havia tomado; mas quem não se esquecia era o cão. Em cahindo alguma perdiz mais geitosa, o Epaminondas estava-me logo a dizer: «E a perdiz da senhora?» «Pois bem, leva lá a perdiz, e não te demores.»
—Mas qual era o processo de eloquencia a que o Epaminondas recorria para se fazer comprehender tão explicitamente?[{126}]
—Eu sei lá! Era tudo: os olhos, o focinho, o rabo. Era tudo!
—Diga antes você que estava tão habituado com o cão, que já o entendia, como a gente, á força de habito, chega a entender um surdo-mudo...