Interrogado o Mahabharata, reproduz a nossos olhos o cyclo tempestuoso das conquistas dos aryas, quando, avançando para o sul, se propozeram assenhorear as regiões do Ganges. O Ramayana é tambem um symbolo sob a fórma de uma epopéa. A serenidade e abundancia que succedem aos trabalhos de Rama, para rehaver o throno e a esposa, representam a conquista pacifica do Meio-dia da India depois da conquista guerreira. É o poema da posse, como o Mahabharata é o poema da lucta. Ambos elles respondem eloquentemente ás interrogações da Historia, ambos elles caracterisam a alma da raça arya ao tempo em que rolava do alto do Thibet para, como uma onda enorme, alagar talvez o mundo[[69]]. Eis-aqui porque já haviamos dito que as obras de arte e de litteratura são as que mais profundamente caracterisam a civilisação de um povo.
Nos tempos modernos, a Historia, depois do rumo que lhe imprimiu Vico, pôde extrahir grandes recursos do estudo dos symbolos; quando ella chegou a lêr esses alphabetos mudos, permitta-se-nos a expressão, dos povos primitivos, descobriu segredos importantissimos. Na poesia do Ramayana conseguiu reconhecer em Rama e em{62} Sita uma dupla personificação da agricultura, da força que move o arado e do sulco que esse movimento produz na terra[[70]], o que plenamente confirma a exegese em que o Ramayana é o poema da conquista do sul da peninsula indostanica pelo trabalho sereno, pela paz. O symbolismo juridico, interrogado pela Historia, produziu a poesia do direito, concepção encantadora que em Portugal só tem originado, até hoje, um unico livro[[71]]. Assim é que a symbolica vai encontrar na stipulacão a palha (stipula), que intervinha nos contractos[[72]] e que até algumas vezes se cosia aos documentos[[73]]; na prova pelo fogo o symbolo da pureza, porque, segundo os antigos, o fogo, sendo o grande purificador, «não podia conjurar contra o innocente[[74]].»
Em Portugal, as mulheres accusadas de adulterio purgavam-se a ferro caldo. O ferro, aquecido pelo fogo, accusava o crime ou a innocencia: o fogo, diz o Ramayana, vê tudo o que ha de manifesto e tudo o que{63} ha de occulto. Bastaria só este facto para demonstrar que o symbolismo tanto abrangia a religião como o direito. Por um lado o fogo tinha um caracter divino, encarnava-se em Vesta, a que os gregos chamavam Estia, fogo domestico[[75]]; por outro lado revestia um caracter juridico, porque pela prova do fogo ficava a mulher legalmente rehabilitada. De modo que no ferro caldo não só se póde distinguir o elemento religioso e o elemento juridico, mas tambem a relação existente entre os dous elementos: sendo o adulterio um crime que principalmente affecta a vida de familia, a superstição continuou a fazel-o julgar pelo fogo, que na mythologia grega tinha um caracter divino de domesticidade.
Antigamente, o historiador fugia dos symbolos pela mesma razão que os caminhantes fugiam da Sphynge: por não poder adivinhar o que elles diziam. Mas depois de Vico, o primeiro philosopho da Historia, as allegorias tornaram-se claras, luminosas. Desde esse momento tanto se dilatou a esphera da Historia, que um só individuo passou a representar uma generalisação: Achilles o valor commum a todos os homens fortes, Ulysses a prudencia commum a todos os sabios[[76]]. Esta generalisação illustrou ao mesmo passo o passado e o futuro: o passado, porque interpretou a antiguidade; o futuro, porque produziu a etymologia das linguagens poeticas.{64}
Pelo auxilio que a archeologia e o estudo das litteraturas vieram prestar á Historia, chegou-se á concepção da ethnographia, sciencia que dá o conhecimento dos usos, costumes, aptidões e religiões dos povos, e cuja denominação foi fixada em 1826 por Balbi[[77]]. Esta nova sciencia veio, pois, completar o estudo do grupo humano sob o ponto de vista zoologico (anthropologia) e sob o ponto de vista historico e geographico (ethnologia). Como se fossem tres grandes linhas, as tres sciencias cruzaram-se em triangulo: dentro d'elle ficou o homem. O homo sapiens de Linneu mais propriamente se poderia denominar desde então homo triplex.
Toda a importancia da ethnographia não está, como por muito tempo se julgou, no interesse maior ou menor que póde despertar á imaginação o conhecimento da estranha maneira de viver dos povos. A sciencia moderna deu ás narrativas dos touristes um valor até agora desconhecido, e foi d'este modo que a ethnographia revestiu um caracter altamente scientifico. Sob este ponto de vista, presta um grande auxilio a interpretação dos phenomenos sociaes, á sciencia da sociedade ou sociologia, como lhe chamou Augusto Comte. Herbert Spencer encontrou grandes subsidios na historia das superstições, quando reconheceu que ellas pertenciam ao numero de certas particularidades de que parcialmente depende a maneira por que a unidade social se comporta no meio{65} das condições ambientes, inorganicas, organicas e superorganicas[[78]].
As civilisações antigas teem-se reconstruido em grande parte pelas investigações archeologicas, que são para a ethnographia um poderoso instrumento de averiguação. A sciencia moderna tem conseguido fazer a historia geral da civilisação da humanidade desde a idade de pedra até nossos dias, como se o homem actual podesse realmente retroceder ao passado e voltar ao presente com as provas materiaes do modo como a sua existencia se desenvolveu, de cyclo em cyclo, sobre a face da terra. Na grande resurreição da humanidade pela sciencia, o mais insignificante fragmento de barro serviu para a reconstrucção historica de uma civilisação.
Do conjuncto das sciencias que estudam o passado, e que são dominadas pela Historia, porque se apoiam sobre factos historicos, trazem origem algumas sciencias novas, entre as quaes mencionaremos a sciencia das religiões. Com quanto recentissima, são realmente admiraveis as conquistas, as descobertas já realisadas por esta sciencia. Uma d'ellas é, seguramente, a affirmação da unidade historica das religiões. A crença de que cada religião possuia sua autochthonia, ou pelo menos certa originalidade, cahiu perante o resultado das investigações modernas, as quaes poderam levar o espirito humano{66} á conclusão de que as religiões teem uma origem asiatica commum, que se encontra nos Vedas. A demonstração d'esta verdade é admiravelmente desenvolvida por Emilio Durnouf[[79]].
Achou-se que as religiões derivam de um elemento primitivo, o fogo, considerado sob o ponto de vista de tres funcções distinctas: uma physica, outra psychologica, a ultima metaphysica. A estas tres funcções correspondem tres phenomenos, que impressionaram o espirito dos aryas, quando ainda estanciavam nos valles do Oxus: o movimento, a vida, o pensamento. Estes tres phenomenos abrangem a totalidade dos phenomenos naturaes.
Espraiando a vista por todas as cousas inanimadas que os rodeavam, os aryas chegaram á convicção de que todas essas cousas se moviam por effeito do calor, proveniente do sol. Reconheceram o calor na chamma, no raio, nas nuvens formadas pela evaporação das aguas, no vento produzido pelos movimentos vibratorios do ar devidos á presença do calor, que o rarefaz, ou á sua ausencia, que o condensa; em tudo, finalmente. Depois, fixando a sua attenção nos corpos organicos, encontraram a mesma causa de vida: viram os vegetaes enfolhar e florir animados pelo ósculo tépido da primavera, e pender feridos de morte no inverno; viram os animaes mover-se cheios de actividade e de vida quando o calor lhes{67} retemperava os membros, e enfermar e morrer quando o frio os enregelava.