O transformismo é uma phase nova d'esta grande questão, que envolve uma idéa antiga[[55]]. Lamarck sustenta que as especies se transformam passando de uma para outra, tanto no reino animal como no vegetal: o homem é uma transformação lenta do macaco. Procurando a origem dos sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes ou mónadas, provenientes de geração espontanea. N'este systema, os meios de transformação{53} explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da existencia. Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das idéas orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos Darwin, cuja theoria se póde definir: A selecção natural por a lucta pela existencia, applicada ao transformismo de Lamarck[[56]]. Segundo Darwin, todos os seres organisados se transformam incessantemente sob o imperio de uma lei de selecção natural (natural selection), e todas estas transformações têem por causa a lucta pela vida (struggle for life), isto é, o combate eterno dos sêres vivos entre si pelos meios de existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo Darwin, de um pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da selecção natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios nocivos eliminados[[57]]. Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de applicar a sua theoria á especie humana particularmente, os que a defendem fazem essa applicação como consequencia logica das asserções apresentadas por elle. A doutrina darwiniana foi o ponto de partida de um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que se filiaram na escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a origem do{54} homem parte das primeiras cellulas conhecidas, moneras, formadas por geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e, depois de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous graus, apparece o homem.

Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias biologicas chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram vida nova á intelligencia humana cada vez mais ávida de saber. Desdobram-se na tela da discussão os mais graves problemas, como por exemplo o das gerações espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das Sciencias de Paris, depois que em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo da discordia ao seio dos quarenta immortaes[[58]]. Certo é que muitos d'esses{55} grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por exemplo o do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos seres organisados vai cada dia ganhando maior terreno.

N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a ethnologia, sciencia que se occupa da classificação, descripção, repartição, filiação e evolução das raças humanas, tem um logar importantissimo, e tanto se identifica esta nova sciencia com a Historia philosophica, que só pelo estudo das raças constituiram alguns historiadores uma Philosophia da Historia.

As analogias encontradas entre as linguas da Europa e o sanscrito determinaram as affirmações a que se chegou sobre a unidade da raça indo-européa ou aryana. Os resultados fornecidos pela investigação levaram Francisco Boop a reconhecer o parentesco das linguas celticas, que até ahi faziam grupo á parte, com o sanscrito, e com as demais de origem aryana. Por onde nos é dado vêr como a ethnologia prosperou pela applicação do methodo philologico. Aqui temos pois irmanadas duas novas sciencias, por igual importantes, a ethnologia e a philologia. E não diremos que a philologia é a base da ethnologia, porque muitas vezes a linguagem de um povo está falseada por agentes historicos e sociaes, taes como a conquista,{56} o commercio, e a irradiação de focos intellectuaes mais ardentes[[59]]. Mas, como quer que seja, acompanhar a evolução das raças desde a sua filiação o mesmo importa que fazer simultaneamente a historia das linguas respectivas e o estudo critico das litteraturas sob o ponto de vista da archeologia, da arte e da mythologia[[60]]. Os grandes problemas philologicos apenas começaram a inspirar geral interesse no principio d'este seculo. O ponto de partida dos modernos trabalhos sobre a sciencia da linguagem foi a Grammatica comparada das linguas indo-europêas por Francisco Boop. A antiguidade classica, circumscripta ao estudo da civilisação italiana ou grega, não podia elevar-se ás theorias geraes[[61]]. Além do que, era preciso que a Historia fosse estudando a genealogia dos povos, reconhecendo-os, para sobre o conhecimento pratico das linguas fundamentar a moderna sciencia da linguagem[[62]]. No seculo actual a philologia começou a estudar as ramificações das linguas, a comparal-as, a classifical-as, a criticar os seus productos, como a Historia começou simultaneamente a estudar as ramificações{57} dos povos, a comparal-os, a classifical-os, a criticar as suas manifestações. A linguistica, estudando a phonetica e a estructura das linguas, veio prestar uma valiosa collaboração á philologia, porque se o philologo não sabe nada da lingua em si mesma, diz Hovelacque, se ignora a sua estructura e os elementos que a compoem, como poderá fazer um juizo completo sobre os productos, os fructos d'esse agente, d'essa lingua[[63]]? A Philosophia positiva, pela applicação dos seus processos de simplificação e de generalisação, tratou de procurar as leis que presidiram á formação das linguas, e assim é que a sciencia da linguagem tem chegado á descoberta de factos importantissimos. Averiguou-se, por exemplo, que a lingua chineza, a qual comprehende quarenta mil palavras, apenas possue um peculio de quatrocentas e cincoenta raizes. Lubbock[[64]] occupa-se em mostrar a identidade de raizes na linguagem de muitas raças, e toma para exemplo as articulações pa e ma, que para a maioria dos povos significam pai e mãe, por isso mesmo que são as primeiras syllabas pronunciadas pela criança, as mais faceis, as mais involuntarias, como observa Lefèvre[[65]]. Mas, aqui se levanta uma importante questão. Como foram escolhidas estas raizes? Como é que certas cousas foram indicadas por certos sons? Max Müller chama a esses primitivos elementos das differentes famillias de linguas typos phoneticos{58} produzidos por um poder inherente á natureza humana. E acrescenta: «Existem, como diria Platão, por natureza; ainda que devemos tambem declarar com Platão que quando dizemos por natureza, queremos dizer pela mão de Deus.» Ha, porém, algumas palavras que, como zas, provém da imitação de um som. Segundo Müller, as palavras d'esta especie parecem-se com as flôres artificiaes: não têem raizes.

Lubbock não fica satisfeito com a resposta dada por Müller a esta pergunta «Como é que os sons podem exprimir o pensamento»? posto adjective de eloquente a resposta. Lefèvre qualifica-a de excesso de mysticismo anglicano por parte de Müller, e observa que «o grito vago, fixado, precisado pelo habito, por convenção, por analogia com certas impressões traduzidas em onomatopêas nos basta para comprehender como a tal ordem de sensações ou de movimentos cerebraes se pôde ligar tal ou tal som.» D'este modo não haveria na linguagem as flôres artificiaes de que falla Müller, e, como pensamos, todas essas syllabas-mães mergulhariam raizes na interjeição ou na onomatopêa, acabando de fixal-as o habito.

A moderna applicação da Historia a todos os ramos dos conhecimentos humanos produziu, na sciencia da linguagem, um estudo encantador—a biographia de cada palavra, muitas vezes em opposição com as regras phoneticas que determinam as mudanças possiveis das letras. O verdadeiro caracter de universalidade da Historia provém{59} certamente não do facto de abranger a generalidade dos povos, mas sim a generalidade dos assumptos, e é por isso que ella envolve, na sua immensa esphera, todas as sciencias. Tudo tem uma historia, e o historiador universal tem de abranger a historia de tudo.

Max Müller[[66]] faz, a traços poeticos, a biographia da palavra palacio. Sobre as margens do Tibre, uma das sete collinas era chamada collis Palatinus. Palatinus derivava-se de Palas, divindade pastoral, cuja festa se celebrava a 21 de abril. Nero mandou demolir todas as casas particulares d'esta collina para ahi edificar o seu aureo palacio, domus aurea, a que se principiou a dar o nome de Palatium, conservando-se como typo dos palacios reaes da Europa. De palatium nasceu o adjectivo palatino, a que se juntou a palavra abobada para significar o ponto mais elevado da bocca, porque abobada era realmente, como observa Müller, uma palavra muito propria para designar o palacio da bocca. O illustre professor d'Oxford, lembrando a phrase de Ennius—palatum coeli—, para exprimir a abobada dos céos, faz sentir a evidente analogia que ha entre a concepção do palacio da bocca e a de uma abobada, e entre a concepção de uma abobada e a sumptuosa habitação dos imperadores.

Tomando por instrumento de investigação a philologia, a Historia não abriu os vocabularios das differentes{60} raças para estudar sómente a biographia das palavras, mas quiz tambem deletrear n'elles a condição social, a civilisação d'essas raças.

A critica philologica descobriu que os Hos da India central não conhecem os termos affectuosos; que os Algonquinos, povo da America septentrional, não possuem o verbo amar; que os Bosmejans não teem nomes proprios para distinguir os individuos; que as tribus brazilicas desconhecem as noções de côr, genero, espirito, etc., por isso que não apparecem nos seus vocabularios palavras correspondentes a estas noções[[67]].

Se os vocabularios foram considerados testimunhos importantes para a historia da civilisação dos povos, as litteraturas, os monumentos litterarios principiaram a reputar-se, perante a critica moderna, a photographia do estado do espirito d'esses povos, e dos seus costumes. É por isso que Henri Taine[[68]] disse: «A historia transformou-se ha cem annos na Allemanha e ha sessenta em França, pelo estudo das litteraturas.» A litteratura copia o povo, como o livro copia o homem. Os monumentos litterarios são a concretisação da alma das nações: tudo o que ella sentia no momento em que produziu, influenciada pela força do meio physico, clima, e pelas disposições hereditarias, raça, está alli condensado. Uma epopéa é um composto determinado pela acção simultanea{61} d'estas tres forças primordiaes reconhecidas por Taine.