Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da humanidade, era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande numero de sciencias correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje. Cada sciencia especial acode a offerecer ao investigador uma poderosa alavanca que ha-de ajudar a levantar a humanidade á altura precisa para receber de frente toda a luz da Philosophia. A Historia, que fôra outr'ora simplesmente a narração de factos, tornou-se, portanto, a mais complexa de todas as sciencias. Foi uma transformação assombrosa. Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os sabios lançaram-se á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por instrumento. O nosso seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A Philosophia positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos cyclos mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles.

Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda em alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição dos modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança foi que nos determinou a escolhermos para dissertação{46} de concurso o vasto assumpto de que vimos tratando, seguramente muito superior ás nossas forças.

Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada anno, diz elle[[46]] numerosas e interessantes monographias, obras especiaes de um incontestavel valor; mas não passam de uteis materiaes, que seria tempo de pôr em obra. A Historia está no ponto em que se achavam: a astronomia antes de Keppler, Copernico e Newton; a chimica antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes de Archimedes; a zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de Cuvier; a physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se movem os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar a curva que descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da orbita que percorrem as nações! Porque não descobrirão a lei da aggregação dos homens, como souberam achar a lei da aggregação das moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica social do mesmo modo que ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será que as forças chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os gazes, os liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus precipitados? Descobriu-se a{47} lei da circulação do sangue no homem: a historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do sangue nas sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a formula da dynamica e da statica politicas, etc.»

Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos da actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da humanidade o impossivel.

Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano caminha energicamente para as acquisições scientificas que as mais pacientes observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada a jornada até esta conquista, porque o espirito humano teve de atravessar successivamente o estado theologico, base e estimulo de todo o progresso, porque é preciso um ponto de apoio qualquer para firmar os primeiros passos, e o estado metaphysico, transição do estado theologico para o estado positivo.

Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que nos permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes invariaveis, e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de simplificarmos a universalidade dos conhecimentos humanos; que nos permitta sujeitar a um systema claro e positivo todas as sciencias fundamentaes estudadas nas suas relações communs como elementos constitutivos de{48} um todo harmonico, e portanto tambem nas suas relações com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa obra de simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a Philosophia positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que lhe é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se propozesse estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se na dos astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na dos physiologicos, e creou a physica social, que se trata de estudar com o vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de observação exige, e que virá completar a constituição da Philosophia positiva.

Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito humano, toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá produzir o conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou da explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica? Responde o proprio Comte, o grande apostolo do positivismo: «Na minha profunda convicção pessoal, considero estas empresas d'explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica como eminentemente chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos, e o universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica possa estar ao{49} nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa muito exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam necessariamente, se ella fosse possivel[[47]].» É o proprio Augusto Comte que nos vem dizer que considera defezos á razão humana todos os mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente; que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se acha, a impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas intimas dos phenomenos, a origem e o destino do universo[[48]].

Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É preciso tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em sêda. A astronomia esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu Archimedes. Odysse-Barot pede a formula da dynamica e da statica politicas: portanto, o que pede são duas theorias scientificas, que se devem considerar como factos logicos. Ora só por uma profunda observação d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das leis logicas[[49]]. A Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já perfeitamente conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos phenomenos sociaes para attingir o seu caracter de universalidade.{50}

Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e observadora, a Historia teve de estudar profundamente a natureza para chegar, finalmente, á exacta concepção do lugar que n'ella occupa o homem. A geologia tem, portanto, attingido um notavel estado de florecimento. A historia da terra desdobrou-se em capitulos com uma nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento se converteu na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da terra, para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia. Nas camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a que o vulgo chama ainda hoje pedras de raio[[50]], e que effectivamente foram considerados como productos da natureza antes que Mercati os considerasse como armas defensivas do homem no estado da sua rudeza primitiva. O achado de alguns fosseis, que pareceram humanos, a par com os esqueletos de alimarias ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de longos debates, e de novos achados, desfazer o erro anthropocentrico, confirmar a existencia prehistorica do homem e por conseguinte o emprego dos instrumentos de silex. Foi assim que do consorcio da geologia com a paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do grande facho da archeologia, pôde a Historia{51} reconstruir as idades primitivas do homem. Chamou á primeira, de pedra, e subdividiu-a em paleolithica ou dos instrumentos de pedra lascada; mesolithica ou dos instrumentos de pedra lascada e de osso; neolithica ou dos instrumentos de pedra polida; e á segunda, idade dos metaes, subdividindo-a em idade de bronze[[51]] e idade de ferro. A descoberta de fosseis humanos, e dos instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo de sciencias que teem necessaria relação entre si.

No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da historia natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se póde considerar originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos já designassem pelo vocabulo anthropologos aquelles que discutiam sobre o homem. O problema da origem do homem impoz-se á meditação dos sabios, como uma das mais importantes questões a resolver. Apartaram-se as opiniões, os campos. A primeira base de toda a discussão foi o Genesis. A opinião polygenista tirava argumento de serem os filhos de Deus representados como raças{52} provenientes de Adão, e os filhos dos homens como raças não adamicas[[52]] e de que a Biblia apenas se referia aos povos semitas, particularmente aos judeus[[53]]. A opinião monogenista contrapunha que todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva, e consecutivamente dos tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a influencia dos meios cosmicos produzira a variedade das raças. Esta discussão veio a generalisar-se, a emancipar-se da sua origem biblica, a diffundir-se pelo campo da sciencia, e até da politica[[54]].