O auctor do Espirito das Leis, fanatico pela sua doutrina, exagera os effeitos do clima, comquanto devesse attender a totalidade dos meios cosmologicos como Herder, mas o que é certo, e a sciencia moderna o tem demonstrado, é que o homem, e mais adeante nos demoraremos n'este ponto, quando tratarmos de Herder, nasce{37} e vive sob a influencia da natureza que o rodeia. O clima produz as sensações habituaes, que, no decurso dos tempos, constituem a sensibilidade definitiva[[33]]. Nas obras d'arte, e de litteratura, que são as que mais profundamente caracterisam a civilisação de um povo, como mais de espaço veremos, importa considerar, segundo Taine[[34]], tres forças primordiaes, a raça, o meio, e o momento. Estabelecida a verdade da influencia climatologica no homo duplex, Emilio Deschanel[[35]] procura no estylo de cada escriptor a caracteristica do temperamento, do clima, dos habitos, etc. Pelletan, considerando o sólo como um collaborador forçado do destino d'uma raça, reconhece a necessidade de se escrever a geographia do progresso[[36]].
Não se póde levar tão longe, porém, a fatalidade exclusiva do clima, sob o ponto de vista da temperatura, que haja de se fechar os olhos a contradicções flagrantes, a que os proprios factos historicos dão relevo, embora Montesquieu veja ainda no fundo d'essas contradicções a influencia climaterica. Assente que os climas frios são os que dão o vigor, a energia, e os climas quentes a molleza e a indolencia, o proprio Montesquieu[[37]] foi{38} obrigado a notar contradicções nos caracteres de certos povos do Meio-dia. «Os indios são naturalmente faltos de coragem, diz elle; os proprios filhos dos europeus, nascidos nas Indias, perdem a do seu clima.» Esta ultima affirmação acha-se plenamente confirmada no precioso livro de um viajante hollandez[[38]], o qual, tratando da maneira de viver dos portuguezes na India, faz notar a ociosidade a que se entregavam, a ponto de explorarem a honra de suas proprias mulheres[[39]]. Pois não obstante a indolencia peculiar ao clima da India, onde a luz e o calor parece conservarem-se n'uma primavera ininterrompida, os costumes indianos são violentos e barbaros: os homens submettem-se a males incriveis, as mulheres lançam-se ao fogo. Montesquieu explica ainda este facto pela preguiça do espirito dos indios, a qual é devida á indolencia do corpo, produzida pelo clima. A preguiça do espirito traz, realmente, a immobilidade nas leis e nos costumes; sem embargo, como observa Voltaire, a influencia dos climas é algumas vezes desmentida pelos factos historicos: em resposta á asserção de que os povos dos paizes quentes são timidos como os velhos, lembra Voltaire que os arabes conquistaram em oitenta annos maior territorio do que aquelle que o imperio romano possuia.{39}
Um philosopho allemão, que Edgar Quinet vulgarisou na Europa, levanta sobre a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado; segundo Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder, a natureza é o molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja largueza de vistas abrange todos os elementos da humanidade, estudados desde a origem dos tempos, no seu desenvolvimento harmonico e progressivo, o que lhe dá uma incontestavel vantagem sobre os philosophos que o precederam, parte da geographia physica para chegar a uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto—diz Quinet—que Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar na natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos povos[[40]].» A theoria de Herder é muito mais complexa do que a de Montesquieu, e é claro que, lançando mão de todos os elementos offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades. Herder, como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios, as linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das paixões que se irão desenvolver{40} no drama. No grande palco do mundo acontece o mesmo. O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma tempera robusta[[41]]. Em Portugal, os povos nascidos nas duas montanhosas provincias da Beira sahem aptos para as maiores rudezas do trabalho; são principalmente elles os que executam a tarefa das ceifas no Alemtejo, onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular, abrazador, chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas, quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do trabalho[[42]]. Os povos do Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da situação geographica, arrojam-se ás maiores ousadias da navegação, como a que no principio d'este seculo realisaram, indo dous homens n'um cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha razão. Um só rio, o sinuoso e extenso Douro, basta a caracterisar a vida da maior parte dos habitantes d'uma provincia. O conhecimento pratico, a observação de algumas povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio de que a fórma geometrica dos rios determina os costumes dos povos circumpostos. As correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de vida; pelo contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos{41} esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um trabalho por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma religião. Pendurados das fragas afim de tirarem os barcos á sirga, empenhados em vencerem os perigos dos pontos, verdadeiras cataratas, havendo previamente, de barrete na mão, confiado as suas vidas a Deus, são completamente absorvidos pela preoccupação do trabalho. Extenuados, quando recolhem ao lar domestico, dedicam-se á vida de familia, ao descanço patriarchal da lareira; regulando ainda assim o tempo por modo que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua pequena horta, no intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a navegação não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para fortalecer-se; bebem para embriagar-se, por deboche. Quando chega a noite, procuram as casas devassas, as rameiras do caes.
Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No estado actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores sociologicos, posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos cosmologicos. As profissões industriaes, por exemplo, não raro dependem de uma influencia puramente local. Jacques de Boisjoslin confirma esta opinião, avisando de que as aptidões profissionaes{42} podem enganar sobre as verdadeiras disposições das raças, por isso que frequentemente derivam do clima, da pressão da natureza[[43]].
Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A figura dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,—escreve elle com o seu bello colorido poetico—, quasi por toda a parte ha determinado a das sociedades; de modo que cada continente é um molde onde a Providencia vasa as raças humanas para que ahi tomem a fórma eterna dos seus designios; e o primeiro propheta escreveu o seu livro nas linhas mudas dos continentes ainda deshabitados[[44]].»
Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de geração, tres épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o pensamento humano póde conceber, o infinito, o finito, a relação do finito com o infinito, sendo que estes tres elementos podem coexistir n'uma mesma época posto que seja o predominio de um o que a caracterisa; Cousin liga tambem uma alta importancia á situação geographica e chega á conclusão de que para tres épocas differentes, tres theatros differentes.
A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de imprimir ao homem um caracter{43} de passividade, que o reduz á condição de escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado, não póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da civilisação. Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina, posto que até certo ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros homens as vozes da natureza pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder explicar por esse mesmo facto a origem da linguagem, e pela situação geographica a euphonia ou a aspereza de certos dialectos.
Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou, quando estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da historia; pelo que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos, a que pertencia, quando representou como rebeldes a toda a cultura os celtas e os slavos, que foram a guarda-avançada da colonisação europêa[[45]].
Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia illuminar, principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes problemas da sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem dedicado grande numero de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias não podemos mencionar n'um trabalho que, como este, tem de ser realisado n'um periodo fatal e curto.{44}
O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de Vico ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos os elementos da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões, as artes, as litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc. Duchinski achou vinte e oito elementos de critica historica: 1. Hydrographia; 2. Plasticidade do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4. Hygiene, doenças; 5. Climatologia; 6. Mythos; 7. Tradições peculiares a cada raça; 8. Faculdades musicaes e poeticas; 9. Tendencia dos povos á vida sedentaria agricola ou a vida nómada mercantil; 10. Lugar da mulher na sociedade; 11. Faculdades religiosas, desenvolvimento das seitas; 12. Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14. Desenvolvimento da vida provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor predisposição para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o ponto de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista euphonico; 21. As linguas sob o ponto de vista dos caracteres da civilisação; 22. As linguas sob o ponto de vista das tradições historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza relativa dos costumes; 24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de parentesco entre os povos sob o ponto de vista das relações historico-politicas; 26. Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos. 28. Grau de parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia Duchinski gabar de{45} ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma alga microscopica, a Trichodesmium erythræum, produz certa coloração particular do mar Vermelho.