Na existencia de cada povo, Vico encontra a idade dos deuses, ou a época em que a imaginação e o medo divinisam as forças da natureza; a idade dos heroes, ou a época em que os homens, imaginando que tudo é obra dos deuses, attribuem a si mesmos uma origem divina; finalmente, a idade historica, em que o heroe se humanisa, e em que a natureza humana se torna intelligente, modesta, dôce e razoavel, obedecendo por consequencia á lei da consciencia, da razão e do dever, como diz o proprio Vico[[28]].
Dentro do circulo fatal d'estas tres idades ou naturezas, é que a vida dos povos se desenvolve e completa. Chegado ao grau de perfeição que fica assignalado, cada{33} povo extingue-se como uma flôr que attingiu o seu maximo desenvolvimento. Outro povo, como outra flôr, o ha-de vir substituir dentro do mesmo circulo fatal.
Toda a theoria de Vico se póde representar graphicamente por uma serie de linhas parallelas, que a nosso vêr exprimem perfeitamente o seu corsi e ricorsi, o progresso e retrocesso dos povos. Segundo esta theoria, os governos começam pela unidade nas monarchias de familia; pelo menor numero, nas aristocracias heroicas; pelo maior numero, nas republicas populares, e acabam pela unidade, como principiaram, nas monarchias civis. A successão d'estes periodos abrange a vida de cada povo.
Assim, Vico, traçando, nos tempos da primeira barbarie, a longa linha de corsi, encontra os paes de familia exercendo um governo, cuja authoridade pretende derivar dos deuses. Esse é o periodo do mutismo; a expressão do pensamento é gesticulada, hieroglyphica (Monarchias de familia). Os homens errantes refugiam-se junto dos paes de familia, que lhes não querem reconhecer direito algum. Os adventicios revoltam-se. São vencidos pelos paes de familia. Revoltam-se de novo. Os paes de familia procuram fortificar-se formando uma classe e regulando os direitos das gentes minores, dos adventicios (Aristocracias heroicas). Segue-se o periodo em que a continuação das revoltas por parte das gentes minores obtem concessões que produzem finalmente o governo humano, isto é, do maior numero (Republicas populares).{34} A estas épocas de agitação succede naturalmente um periodo de repouso, a monarchia. Mas cumpre notar que por isso que as monarchias e as republicas populares são ambas uma expressão do governo humano, podem succeder-se alternadamente.
Tracemos agora, segundo Vico, parallela á linha de corsi, a linha de ricorsi no periodo da segunda barbarie.
Voltam os tempos divinos. Os reis são os defensores da religião, magestades sagradas. Revestem a dalmatica dos diaconos. A corôa é encimada pela cruz. Fundação das ordens religiosas armadas. Os signaes dos brazões correspondem á linguagem hieroglyphica.—Regressam os tempos heroicos pelo feudalismo. Os barões são os heroes; os servos são as gentes minores.—Finalmente, os esforços dos vassallos para conquistarem a liberdade, em virtude da lei de que a potencia livre de um estado deve passar ao acto, vencem os esforços dos senhores e dão origem ao governo do maior numero, isto é, aos governos democraticos modernos.
Vico, encontrando o parallelismo dos corsi e ricorsi na linha d'extensão, não o pôde comtudo achar na duração e intensidade dos periodos, porque o da segunda barbarie foi muito menos longo e profundo que o da primeira.
A theoria de Vico tem sido mais ou menos impugnada, sem que da impugnação se possa deduzir menospreço pela elevada concepção do philosopho napolitano,{35} que evidentemente se baseia na divisão dos tempos, feita pelos egypcios e pelos chinezes. Cantu acha que a theoria da Scienza nuova tem o inconveniente de sobrepôr a razão á liberdade; de inutilisar todos os esforços tendentes a realisar um progresso continuo; finalmente, que ella é desmentida pela constituição da sociedade americana, que se organisou sem deuses, sem heroes e sem feudatarios, á custa da industria e da concorrencia[[29]]. Cousin encontra na theoria de Vico o vicio da preponderancia do elemento politico, da omissão quasi completa da arte e da philosophia, e sobretudo do estudo da civilisação oriental, dominada pela religião; finalmente, da omissão relativa aos destinos da humanidade em geral na sua marcha de refluxo em refluxo[[30]]. O snr. dr. Theophilo Braga acha que se ha erro n'aquella divisão dos tempos consiste em fazer o computo de tal modo, que os periodos subsequentes sejam excluidos dos primeiros[[31]].
Mas Cantu, como Cousin, faz justiça ao talento brilhantissimo de Vico, cuja arrojada intuição, em pleno seculo XVIII, espanta realmente. Comquanto Vico fique hoje muito atrazado em vista do estado actual da sciencia, sobretudo pelo que toca aos modernos debates sobre a origem das especies, distribuição geographica das raças humanas, pluralidade dos mundos, suspeitada já por{36} Giordano Bruno, e á questão da influencia dos meios, não póde deixar de reconhecer-se que não só previu muitos dos mais transcendentes problemas da sciencia moderna, taes como o da origem da linguagem, cuja resolução antecipou, mas tambem que deixou na sua obra os germens de muitas sciencias novas[[32]], e que foi o fecundador da maior parte das theorias modernas, entre as quaes a Philosophia da Historia.
A obra de Vico foi continuada por Montesquieu n'um plano igualmente superior. Como Vico, Montesquieu occupa-se da relação do direito com os costumes, mas introduz na sciencia da Historia um elemento novo, que todavia já Hippocrates, Platão, Aristoteles e outros sabios da antiguidade haviam suspeitado: a influencia dos climas no caracter e vida dos povos. Bossuet havia introduzido na Historia universal o elemento religioso: Vico, o elemento racional; Montesquieu introduziu o elemento climatologico.