Lançada a primeira pedra no vasto edificio da Historia da humanidade, uma de duas cousas havia fatalmente de acontecer: ou a obra de Bossuet ficaria esquecida e, portanto, perdida, ou novos obreiros viriam continuar a fabrica gigantesca. Felizmente, um homem verdadeiramente superior, um «d'estes genios descobridores que alcançam as verdades na sua maior generalisação»[[26]], appareceu em Italia, illuminando com os relampagos do seu genio a grande obra da historia das idéas humanas, porque, já o dissemos, a historia dos povos não é outra cousa, ou antes creando elle proprio uma sciencia nova, scienza nuova, a rainha das sciencias, «porque as sciencias devem começar onde a materia e o objecto de que tratam principiam, e esta começará de feito com os primeiros pensamentos dos primeiros homens, e não com as primeiras reflexões dos philosophos sobre as idéas humanas[[27]].
É claro que nos referimos a João Baptista Vico.
O immortal philosopho napolitano, cujas obras despertam a mais sympathica admiração e o mais profundo interesse, extrahe da noite profunda e tenebrosa que envolve a antiguidade, uma affirmação completamente nova e surprehendente: O mundo civil foi certamente feito pelos homens{31} ou, n'uma phrase mais synthetica ainda, a humanidade é obra de si mesma.
Remontando-se á origem do mundo das nações, ou mundo civil, João Baptista Vico acceita a tradição biblica de que a terra fôra repovoada pelos descendentes de Noé, os quaes, rompendo os laços de familia por ligações passageiras e arbitrarias, se espalharam na grande floresta da terra.
A infancia da humanidade é semelhante, segundo Vico, á infancia do homem.
Os homens são mudos na sua origem. Vivem apenas porque o instincto os leva a conservarem-se. Mas o primeiro trovão e o primeiro raio lançaram no seio da humanidade nascente uma luz nova, a primeira noção da divindade, como já mostramos no principio d'este trabalho.
A commoção que o primeiro phenomeno meteorologico produziu no homem, desprende-lhe a lingua: póde, finalmente, pronunciar o primeiro monosyllabo.
O desenvolvimento da palavra faz-se lentamente na humanidade como no homem. A insufficiencia da linguagem é supprida por signaes, por gestos ou pela grosseira representação dos objectos na casca das arvores, origem dos hieroglyphos. Para facilitar a articulação das primeiras palavras, os homens fallam cadenciadamente: é a origem dos cantos, dos versos, da pantomima e da dança. Desenvolvidos os orgãos da voz, as primeiras palavras são a copia dos sons da natureza. Depois as palavras perdem a significação natural e tomam uma significação{32} convencional; o mesmo acontece na escriptura, a partir dos hieroglyphos.
O homem, assustado pelo trovão e pelo raio, escondeu-se nas cavernas da terra, receando d'um poder superior a elle; e ahi occultou tambem a sua companheira. D'esta juncção nasceu a familia, a que o homem teve de procurar alimentos, tendo de sahir, para encontral-os, dos recessos das cavernas. Do accordo dos deveres e das necessidades, a que esta primeira sociedade deu origem, nasceu o direito natural.
Segundo a formosa theoria de Vico, vêmos, pois, como o homem é um producto de si mesmo, e o mundo civil é feito pelo homem.