Assim como a medicina seria uma sciencia imperfeitissima, destinada a caminhar ás cegas, se a physiologia não houvesse podido penetrar na vida interior do corpo humano, assim a Historia universal ficaria condemnada a contemplar tão sómente o enorme vulto do gigante que se chama humanidade, se a philosophia, desempenhando missão semelhante a da physiologia no campo das sciencias medicas, não perscrutasse o que ha de intimo e de secreto no seio d'esse colosso, se, por outras palavras, não habilitasse a escrever a verdadeira historia da humanidade[[21]].

Uma nação constitue-se, florece e cahe. No fim de contas, pergunta um philosopho[[22]], o que é uma nação de{27} mais ou de menos na humanidade? E tem razão. A Historia não passa além do tempo marcado á existencia d'essa nação, quer dizer, acompanha-a até ao seu ultimo dia, mas a Philosophia da historia procura estudar a influencia que essa nação extincta imprimiu na sorte da humanidade, qual o papel que representou no grande concerto dos destinos da civilisação.

Os povos são individualidades conscientes. Ora todos os factos praticados por individualidades conscientes, embora hajam sido determinados por causas variadas, representam uma idéa.

A Historia estuda os factos; a Philosophia estuda a idéa que cada um d'esses factos envolve.

Portanto a Philosophia completa a Historia.

Bossuet, o sabio prelado de Meaux, foi quem primeiro executou a idéa de uma Historia universal. Dedicando o seu vasto trabalho ao Delphim,—vasto, sobretudo, em relação a época—procura lançar a vista sobre a successão dos seculos, afim de que no espirito do principe permaneçam gravados os traços geraes da vida da humanidade se por ventura se lhe desluzirem da memoria os episodios das historias particulares.

«Esta maneira de historia universal—diz elle[[23]]—é, a respeito da historia de cada paiz e de cada povo, o que uma carta geral é para as cartas particulares. Nas cartas particulares estudaes miudamente um reino ou uma provincia{28} em si mesmos; nas cartas universaes aprendeis a situar todas as regiões do mundo conjunctamente; vêdes o que Paris ou a ilha de França é para o reino, o que o reino é para a Europa, e o que a Europa é para o universo.»

Realmente, este espectaculo offerecido por Bossuet ao Delphim era assombroso, mas não se póde considerar como propriamente uma invenção do prelado de Meaux. Por isso dissemos anteriormente que foi elle quem primeiro executou a idéa de uma Historia universal.

Bossuet, traçando o plano da sua obra, antepõe a tudo o mais a historia do povo de Deus, que foi o fundamento da religião. Escreve, portanto, sob o ponto de vista religioso, ou antes faz-se um echo da Igreja. A sua obra é, para assim dizer, um desdobramento da Biblia, e toda a originalidade que revela está, como observa Cousin, na execução. Vendo caminhar o povo de Deus á face da terra, sempre guiado pelo milagre, que faz, por exemplo, com que a vara de Moysés aparte as aguas do mar Vermelho, Bossuet vê em todos os passos d'esse povo a mão de Deus, o espirito do Senhor. O plano descoberto por Bossuet na mobilidade dos acontecimentos humanos é traçado pela Providencia. «Mas lembrai-vos, meu senhor—conclue o prelado de Meaux[[24]]—que esta longa cadêa das causas particulares que fazem e desfazem os imperios, depende das ordens secretas da divina{29} Providencia.» Embora arrastado pelas convicções profundamente religiosas do seu tempo e do seu espirito, e até pelo dever da sua posição social, Bossuet tem um ponto de vista exclusivo, unico, intransigente; mas em todo o caso imprime á Historia um caracter philosophico, porque determina um mobil e um fim a todos os acontecimentos humanos.

O exclusivismo de Bossuet é seguramente, pelo menos á luz da sciencia moderna, o maior defeito da sua obra. Havendo elle comparado a Historia universal a um mappa-mundi, onde se póde vêr o que Paris é para a França, a França para a Europa, e a Europa para o universo, esquece-se comtudo, perante o espectaculo da Providencia, embevecido em extasis religiosos, de estudar as relações dos povos entre si para se elevar até á humanidade. Elle preoccupa-se com o povo de Moysés como se esse povo constituisse por si só a humanidade. Na historia dos imperios, a que consagra a terceira parte da sua obra, procura systematicamente a ligação, que reputa necessaria, com a historia do povo de Deus. Não só o Oriente falta no grande livro de Bossuet,—pondera Cousin[[25]]—assim como a historia das artes, da industria e da philosophia; mas tambem as religiões e as instituições politicas dos differentes povos são algumas vezes tratadas de modo um pouco superficial, se bem que de longe a longe, e por exemplo na historia romana, haja{30} relampagos de uma sagacidade superior e paginas que lembram Machiavel e antecipam Montesquieu.»