Toda a gente sabe como a imaginação dos povos occidentaes se exaltava com a posse das reliquias de um santo, n'uma época ainda relativamente proxima de nós. Sicard, duque de Benevento, declarava guerra a Amalfi só para obter os restos mortaes de Santa Triphomena.{22} Theodoro, bispo de Metz, preava em Roma, na presença do papa, a cadêa de S. Pedro, e jurava que não a largaria sem que primeiro lhe cortassem as mãos, porque a desejava possuir[[15]]. Jerusalem, a cidade celeste, apparecia ás imaginações christãs como um sagrado jardim rociado pelas lagrimas de Maria e pelo sangue de Jesus, e povoado das rosas de Engaddi, dos cedros do Libano, das oliveiras de Gethsemani, para nos servirmos de uma expressão alheia.
A cavallaria, em que o elemento christão se accentuou de modo a gerar as ordens militares religiosas, veio ainda inçar a Historia com as aventuras dos paladinos, com os matizes d'essa vida de imaginação, tão futil mas tão pittoresca. A febre da cavallaria chegou a ser tamanha, que bastará citar um só facto para comproval-a. Quando Carlos V foi coroado em Bolonha, tocou com a espada na cabeça dos que desejavam ser cavalleiros, dizendo a cada um: Esto miles. Mas como todos gritassem em volta do rei: Sire, sire, ad me, ad me, Carlos V, estendendo a espada sobre a multidão, viu-se obrigado a dizer: No puedo mas. Estote milites, estote milites, todos, todos[[16]].
Na época a que nos vimos referindo, os historiadores engrinaldavam as suas lucubrações com as flôres colhidas pela mão do amor e com as rosas cortadas nos{23} hortos de Jerusalem, pois que tanto valiam umas como outras, como claramente demonstra o annel nupcial com que S. Luiz brindou Margarida de Provença, o qual era formado de margaritas e de lizes alternados, tendo no meio um cruciflxo circuitado por esta inscripção: Hors cet anel pourrions-nous trouver amor[[17]]?
Na historia portugueza andaram por muito tempo dous episodios, que tiveram por origem o maravilhoso da tradição religiosa e o maravilhoso da tradição cavalheiresca. Referimo-nos ao milagre de Ourique, refutado por Herculano, e á instituição da ordem de S. Miguel da Ala, refutada por fr. Francisco de S. Luiz.
Quando havia de soar, porém, a hora em que o maravilhoso, o predominio da imaginação, devia ser banido da Historia? em que essa especie de peccado original devia desapparecer batido pelo criterio philosophico?
Coube aos tempos modernos a gloria de refundir a Historia, de lhe dar um novo rumo, de alargar as suas vistas espraiando-as por sobre toda a humanidade. A primeira idéa da Historia universal nasceu no seculo XVII, época relativamente muito recente, mas esta nova e grandissima conquista do pensamento humano só tarde podia chegar. Era preciso deixar accumular ruinas sobre ruinas, destroços sobre destroços, dar tempo a que os imperios desabassem, a que as religiões desapparecessem, a que os cadaveres dos homens e das instituições{24} se amontoassem, para que de cima de todos esses enormes escombros se levantasse sereno e altivo o pensamento humano, semelhante a uma grande aguia, e alçasse o vôo até pairar n'uma esphera superior e poder medir, com segura agudeza de vista, a profundeza dos destinos da humanidade na successão dos seculos.
Victoria immensa foi essa, triumpho assombroso o que permittiu que o homem alargasse por todo o mundo o dominio do seu espirito, que reconstruisse a humanidade como os primeiros historiadores haviam reconstruido a nação; que zombasse da morte animando as cinzas dos cadaveres e povoando com elles, por um poder maravilhoso do espirito, os imperios que tinham apparecido e desapparecido á face da terra, como plantas marinhas que ora surgem fluctuando no dorso da onda, ora se escondem nos sulcos profundos do oceano!
Desde o momento em que o homem pôde realisar esta synthese estupenda, o maravilhoso, as tradições fabulosas fugiram espavoridos do dominio da Historia. Outr'ora, como observa Edgar Quinet, «cada nação se fazia o centro e o fim do universo, e se impunha á adoração do genero humano[[18]]»; agora era o genero humano que se impunha á admiração de cada nação. Perante o enorme conjuncto dos povos, já não podia pensar-se em assignalar a origem de cada um singularmente; desapparecia o orgulho nacional, o excessivo sentimento de{25} amor patrio que procurava revestir essa origem de ouropeis poeticos; agora era preciso procurar a filiação da humanidade, estudar a sua apparição na terra, as suas divisões e evoluções, e tomando a peito a resolução de tamanhos problemas não havia tempo para estar a inventar fabulas, que ficavam esmagadas, como flôres inuteis, sob o carro da nova idéa, ou antes da nova sciencia vencedora. Como flôres inuteis, dissemos nós, e todavia devemos reflectir, avisados por Victor Cousin[[19]], que os primeiros erros são inevitaveis e ao mesmo passo uteis, porque fornecem a base de todo o progresso. De feito, não se póde entender a idéa de progresso senão á vista de primordios que se tornam defeituosos quando comparados com trabalhos posteriores. «Sem as attrahentes chimeras da astrologia, sem as energicas decepções da alchimia, por exemplo, onde teriamos nós haurido, pergunta Augusto Comte, a constancia e o ardor necessarios para recolher as longas series de observações e de experiencias que, mais tarde, teem servido de fundamento ás primeiras theorias positivas de uma e outra classe de phenomenos[[20]]»?
Até agora tinhamos diante de nós a Grecia, Carthago ou Roma, e feita a historia separada de cada uma d'essas nações, julgavamos que tudo estava feito. Pelo contrario,{26} tudo principiará agora a fazer-se, tomando por elementos de trabalho as ruinas d'esses emporios. Desde o momento em que nos collocamos n'um plano superior a todas as nações, creamos a Historia universal, e, conhecendo pela Historia universal os factos da vida dos povos, salteou-nos o desejo de averiguar as relações que poderiam existir entre os factos e as idéas, de conhecer se todos esses factos seriam obra do acaso, ou se cada povo teria sido impellido por um mobil secreto para o cumprimento de determinada lei e encarregado de desempenhar uma missão no grande conjuncto da civilisação geral.
De tal desejo nasceu, no seculo XVIII, a Philosophia da historia.