Por um lado as tradições poeticas, as narrativas fabulosas geraram a Historia. Por outro lado os factos reaes, especialmente os combates, misturados com as legendas phantasticas, desenvolveram-na.
Como para haver Historia é preciso que haja ruinas, a guerra foi o maior elemento da Historia, porque produz cadaveres, e os cadaveres são as ruinas da humanidade. Os seculos não passavam impunemente, sem fazer destroços. Na China, a monarchia dos Hia, que durou quatrocentos annos, acabou acompanhada de graves perturbações. Eis-aqui como foram augmentando os materiaes da Historia: ruinas e destroços.
Foi assim que, semelhante ao sol que nasce velado pelos vapores coloridos da manhã, surgiu, na successão dos tempos, a historia de cada nação, envolta nas tradições maravilhosas da sua origem poetica.
Que interessado enthusiasmo não devia de ser, porém, o dos primeiros homens que puderam quebrar imaginariamente o sello sagrado da sepultura das gerações que os precederam no perimetro da sua nação, e soprar-lhes vida nova, imitando a fabula de Pygmalião, o estatuario divino, e dar-lhes pensamento e voz, e ouvil-as, e collocal-as á volta de si mesmos, vendo-as passar em turbilhões phantasticos como na formosa ballada da dança dos mortos! O historiador, por uma arrojada abstracção, collocava-se fóra do seu paiz, e com uma poderosa{20} alavanca, muito semelhante á que o sabio Archimedes pedira ao rei Hieron, levantava a terra que lhe fôra berço com o peso enorme das gerações que a povoaram, mostrando-a suspensa aos olhos do mundo. Era realmente assombrosa esta nova conquista do pensamento humano, tanto mais que podia o homem transmittil-a aos seus successores por meio da tradição escripta. Sentiu-se decerto orgulhoso de si mesmo o homem que pôde legar aos seus descendentes essa preciosa cadêa de ouro que o prendia ao passado, á vida de seus avós, á gloria da antiguidade; fez, para assim dizer, um presente de seculos aos seus descendentes, que, por sua vez, arremessaram para a immensidade do futuro a outra extremidade da corrente de ouro, a que as gerações subsequentes haviam de encadear novos anneis.
Chegado á grande conquista do que chamaremos faculdade historica, isto é, ao desenvolvimento intellectual que permittiu transpor os limites da vida individual para se internar no estudo da vida nacional, apossou-se o homem de um poder verdadeiramente superior, que lhe permittia reconstruir o passado.
Se é attribuido a Christo o poder de ter resuscitado um só homem pelo milagre, o homem logrou resuscitar a nação pela Historia.
Mas os primeiros historiadores deveram forçosamente de assemelhar-se a estas arvores que, exuberantes de seiva na primavera, se cobrem totalmente de flôres, como a amendoeira. A imaginação, excitada pela tradição poetica[[14]],{21} estava n'elles em pleno vigor, pompeava as suas galas luxuriantes, á maneira das florestas virgens que se enredam em labyrinthos de phantasiosas ramarias.
Sendo certo que o ardor da imaginação arrasta á excessiva credulidade, os primeiros historiadores foram profundamente credulos, e bordaram as suas narrações com todas as tradições, legendas e fabulas, que a imaginação acceitára com prazer ou até com enthusiasmo.
Herodoto é um historiador poeta, que divinisa a Grecia; Tito-Livio dá largas á imaginação para descrever e declamar; Suetonio contenta-se com colleccionar anecdotas, que, por via de regra, tanto costumam lisonjear os espiritos frivolos, porque são um brinco para a imaginação.
Na successão dos tempos o christianismo, com o seu cortejo de legendas piedosas, com as exagerações proprias da exaltação da fé, contribuiu por sua vez, e não pouco largamente, para prolongar o predominio da imaginação na Historia, e retardar o advento do criterio philosophico e independente.