Aqui temos nós a linguagem, não como base de sociedade, mas, ao contrario, tomando a sociedade como base da sua perfeição.
Estabelecida a procreação pelo instincto, força irresistivel da natureza humana, que principiou a manifestar-se no homem desde os seus primeiros passos na terra, achando-se ainda embryonarias todas as forças moraes e intellectuaes, que por um lento progresso permittiram depois as mais elevadas concepções, e as mais assombrosas conquistas, foi ainda o instincto que levou a humanidade a lançar mão das primeiras industrias, da vida pastoril, da caça, da pesca, do commercio, segundo as condições naturaes dos paizes. «Assim as diversas industrias, diz Cantu, nasceram{15} e cresceram na razão dos lugares; porém a agricultura foi a que introduziu maiores mudanças na constituição moral. O homem, querendo, quando cultivou um campo, seguir com a vista as esperanças que lhe dava, construiu junto d'elle uma habitação; então aquelle sentimento tão imperioso, que chamamos amor da patria, apparece, e a estabilidade do lar domestico dá origem á associação civil.» Mas o lar domestico a que se refere Cantu está longe de ser a moralidade pela familia, pela familia que a monogamia santificou. O agricultor vivia rodeado dos seus escravos, e dos filhos; de procedencias diversas, escravos tambem. O pai era o senhor; governava pela força. A mulher era simplesmente uma cousa, um instrumento de reproducção; e as mais das vezes era arrebatada á sua tribu por violencia. Portanto, as primeiras familias foram uma reunião de escravos dominados por um chefe, só muito tarde, como mostra Lubbock[[8]], baseando-se nos trabalhos de Bachofen, M. Lennan e Morgan, é que se reconheceu que os filhos eram parentes de seu pai e de sua mãi. Mesmo em Roma, a palavra familia significava—escravos.—A mulher e os filhos só por serem escravos eram considerados familia.
Vico mostra, por uma observação philologica, a verdade d'estas affirmações. Sustentando, como na formação da linguagem, os verbos vieram depois dos nomes, e como os primeiros verbos foram certamente aquelles que{16} são como que os generos ou os radicaes de todos os outros, exemplo, sum, que contém todas as cousas metaphysicas,—sto, que exprime a immobilidade, e eo, que significa o movimento, observa por ultimo que estes verbos apenas tiveram a principio o modo imperativo, porque no estado de familia, e na excessiva pobreza de linguagem que então havia, só os paes davam ordens a seus filhos ou a seus criados, ao passo que estes, submettidos ao terrivel imperio do chefe de familia, obedeciam sem murmurios ás suas ordens[[9]]. Ainda hoje, entre os kalmuckos do Volga, o azorrague é o sceptro e o symbolo do poder domestico[[10]].
Foi certamente com esta mesma força de auctoridade que nasceu o chefe de tribu. Se a reunião de algumas pessoas carecia de uma que a regesse, a reunião de algumas familias, por maioria de razão, carecia de um magistrado que a governasse. Os chefes de familia ou senhores reuniam-se para se entregarem, em condições de segurança, ao exercicio da caça. Escolhiam certamente d'entre elles, para os dirigir, o que mais se assignalava pela destreza e certeza de caçador. Reconhecida a sua superioridade natural, ficava sendo o dominador da tribu. E esta authoridade devia ser tanto mais respeitada e temida, quanto era certo que se baseava n'um facto indestructivel e inevitavel, revestido de caracter divino,{17} porque a força era um attributo que não dependia da vontade do homem.
Da agglomeração das tribus nasceu a nação, como da agglomeração das familias havia nascido a tribu.
Sendo, porém, maior o numero de governados na nação do que na tribu, era preciso que o chefe escolhido para governal-os dispozesse de qualidades physicas ainda muito mais consideraveis. A mais importante de todas essas qualidades era a força, que, n'uma raça de valentes, não podia deixar de considerar-se um direito hereditario para governar. Cesar Cantu observa que o vocabulo dynastia (de dynamis, força) indica a origem de um tal poderio.
Temos, finalmente, fixada a nação, a nacionalidade, sob o imperio da força, origem dos grandes como dos pequenos estados, em todos os paizes e tempos. Citemos dous exemplos, ao acaso. «Romulo e os seus successores, diz Montesquieu[[11]], estiveram quasi sempre em guerra com os povos visinhos para ter cidadãos, mulheres ou terras; voltavam a cidade com os despojos dos vencidos; eram feixes de trigo e rebanhos: o que causava uma grande alegria. Eis-aqui a origem dos triumphos que foram no futuro a principal causa das grandezas a que esta cidade chegou.» A origem da moderna e pequena monarchia portugueza encarna-se, para assim dizer, na{18} athletica figura de Affonso Henriques, o terrivel perseguidor dos mouros, o guerreiro de estatura agigantada.
A propria origem das primeiras nacionalidades as impelliu á guerra, que, segundo Victor Cousin[[12]], é o instrumento terrivel mas necessario da civilisação. «A hypothese de um estado de paz perpetua na especie humana—diz elle—é a hypothese da immobilidade.» Comquanto não nos exalte em favor da guerra esta opinião de Victor Cousin, somos todavia levados a acreditar que a vida das primeiras nacionalidades se fortaleceu pela guerra, como o corpo de uma criança se fortalece pela gymnastica. Além do que, a victoria, lisonjeando o orgulho dos povos, nobilitava, para assim dizer, as suas aspirações de grandeza, e arrastava-os a assignalarem a si mesmos uma origem divina, aspiração que é a primeira fonte das tradições poeticas d'esses mesmos povos[[13]].
Acordada, portanto, a imaginação popular, cerca-se o berço das nações das brumas do maravilhoso.
Os quatro livros sagrados de Confucio, reconstruidos de memoria, depois de haverem sido queimados, e acrescentados com tradições, fazem remontar a historia da China, especialmente o ultimo livro, a um passado fabuloso. Na mais antiga parte dos Vedas, o Rigveda, os indios agradecem a intervenção do poder celeste nos seus combates. Indra protege a carnificina, como nós, quando{19} procurámos uma origem maravilhosa, fizemos intervir Christo na batalha de Ourique.