Parece-nos, porém, questionavel a fixação do periodo de desenvolvimento humano em que se constituiram as primeiras sociedades.

«Na verdade, diz Cantu, como podiam os laços do matrimonio e da paternidade tomar-se deveres antes do homem comprehender o bem que d'isto deriva e os meios de o alcançar? Como conceberia as vantagens da sociedade o que nunca as tivesse experimentado? Para que os homens se unam entre si, e façam um pacto social, é forçoso que possuam uma linguagem commum para se entenderem uns aos outros, e fórmas de convenção, de assembléas, e de representação; isto é, que estejam reunidos já em sociedade.»

Não concordamos, a este respeito, com a opinião de Cantu, pelas razões seguintes.

As relações naturaes a que o auctor da Historia universal allude na primeira interrogação, e que, segundo elle, importam a comprehensão dos deveres que d'ellas derivam, annullam, assim encaradas, a idéa de instincto, facto comprovado em todas as especies animaes, e até nas vegetaes. Para as aves, por exemplo, os laços d'essas relações naturaes convertem-se em deveres, e todavia nós não podemos suppôr nas aves a noção moral de dever. Emquanto, entre algumas familias aladas, a mãi acalenta o ovo, o pai divaga procurando alimento para a femea, e muitos naturalistas citam o facto de certas aves educarem{12} seus filhos no que chamaremos arte do vôo, antes de os abandonarem a si mesmos.

Quanto á segunda interrogação, convem distinguir entre o facto de constituir sociedade e o conhecimento das vantagens que d'ella resultam. Tambem poderemos suppôr nas aves, que se agremiam em grandes bandos, o conhecimento das vantagens que d'essa aggremiação resultam? As formigas, que vivem e trabalham em commum, obedecerão simplesmente ao instincto de conservação, ou serão impellidas pela elevada idéa da utilidade de associação?

Quanto á terceira interrogação, isto é, á necessidade de uma linguagem commum para que os homens possam reunir-se por um pacto social, desejamos accentuar mais largamente a nossa maneira de pensar.

Não somos da opinião dos que affirmam que haja tribus completamente privadas de linguagem, mas entendemos com sir John Lubbock[[4]] que essas tribus possuem todas uma linguagem, comquanto muito imperfeita e complicada de signaes.

Bastará citar em abono d'esta asserção o facto de entre os indios kiawa-kaskaia as tribus communicarem diariamente entre si, segundo o testimunho de James[[5]], ignorando completamente a linguagem umas das outras. «Pelo que não é raro, diz James, vêr dous individuos,{13} pertencentes a tribus differentes, sentados no sólo, conversando facilmente por signaes. São muito habeis em exprimir por este modo as suas idéas, e apenas interrompem o jogo das mãos, a longos intervallos, por um sorriso ou por uma palavra pronunciada no idioma dos indios crow, o mais espalhado ainda entre elles.»

Por onde nos é licito vêr que sobre a mais imperfeita e rudimentar linguagem, a dos signaes, estabelecem os indios kiawa-kaskaia as mais cordeaes relações de sociabilidade com as tribus visinhas. Finalmente, a theoria de Vico, dos povos mudos, exprimindo-se por meio de corpos ou de imagens, que tinham alguma relação natural com as idéas que queriam exprimir, por exemplo, tres espigas para significarem a idéa abstracta de tres annos[[6]], é manifestamente muito mais acceitavel do que a de Cantu, porque se funda na propria natureza humana, e destroe a opinião de que sem uma linguagem, no estado de perfeição em que Cesar Cantu parece suppol-a, a associação humana é inadmissivel.

O dr. Luiz Büchner[[7]] confirma a opinião de Vico. Crê, segundo Westropp, que o homem primitivo foi necessariamente um sêr mudo, e a linguagem articulada uma acquisição lenta e gradual; que ella teve por origem os gritos espontaneos de prazer e dôr, a que succederam{14} os sons imitativos (onomatopéas), razão por que na grande variedade de todas as linguas (cerca de tres mil) ha um numero consideravel de sons equivalentes, e até mais ou menos analogos. Cita uma observação de William Bell, a respeito do monosyllabo loh, empregado em muitas linguas para designar a luz, a chamma, e que procede da simples exclamação oh! precedida de um l ou de uma vibração da lingua. Crê que a pouco e pouco se foram formando os polysyllabos, pela repetição de um som simples, como nas palavras mamã, papá ou pela agglutinação das syllabas. «Depois, observa finalmente, o simples grito, correspondente a um sentimento, foi imitado pelos companheiros d'aquelle que o soltou, e acabou por tornar-se um signal representativo fixo servindo a designar o proprio sentimento.»