Todos estes tres deuses estão, pois, substancialmente identificados na trindade aryana como na trindade christã. São uma concepção metaphysica baseada sobre uma concepção muito vaga da natureza.
Mas a unidade historica das religiões póde ainda acompanhar-se na vida de Agni, o deus que se humanisa, porque desce á terra.
Twastri, seu pai, é o carpinteiro, que fricciona os dous bocados de madeira, de que ha-de sahir o «filho divino».
Mâyâ é a personificação da potencia productora sob a fórma de mulher.{69}
Agni nasce homem e transforma-se em deus quando um sacerdote, collocando-o sobre o altar, derramou sobre a sua cabeça o licôr sagrado, sôma, e o ungiu com a manteiga do sacrificio. Entre os aryas da Asia central a vacca era o typo por excellencia dos animaes, produz o leite, o qual produz a manteiga. A manteiga clarificada é a materia animal que melhor serve para alimentar o fogo. O sôma é um licôr alcoolico, produzido pelo succo da asclepias acida, que, fermentado, e lançado ao fogo, cria chammas esplendidas.
O sôma das religiões do Oriente transforma-se nas religiões do Occidente em vinho, o licôr sagrado. Assim como Agni reside no sôma, Christo reside no vinho, tambem sob uma fórma mystica. Ainda vamos encontrar no vinho o elemento vedico do fogo: a uva amadurece pelo calor, concentra-o, e transmitte-o a quem bebe o seu succo. O bolo que na religião indiana é feito de farinha e manteiga, materias eminentemente combustiveis e nutritivas, transforma-se na religião christa na hostia feita de farinha e agua, convindo lembrar que a combinação do hydrogenio com o oxygenio, de que resulta a agua, tem por condição, essencial o calor. Agni como Christo residem n'esta offrenda solida: são o sacrificador que se offerece a si mesmo como victima.
Eis o dogma da eucharistia.
Seguindo o luminoso rastro de Burnouf, poderiamos levar mais longe a demonstração da unidade historica das religiões, mesmo sem sahirmos do christianismo;{70} poderiamos descer a minuciosidades, mostrar como a estrella dos magos é a savanagraha, a estrella fatidica; como a vacca do presepe de Bethlem é a vacca mystica dos aryas, e como nem siquer falta o jumentinho que para alguns áryas traz sobre o dorso o fructo de que se extrahe o licôr sagrado; pelo que especialmente toca aos ritos, seria curioso mostrar, por exemplo, acompanhando Burnouf, como a grande época do anno christão consiste justamente nas ceremonias da renovação do fogo, quer dizer, na Paschoa; mas o nosso fim é tão sómente fazer sentir que a unidade das religiões é uma verdade, e que essa verdade foi conquistada por uma sciencia nova, baseada sobre factos historicos, e portanto filha da Historia universal philosophica.
A grande obra de simplificação da Philosophia positiva releva principalmente no mobil que impelliu o espirito humano a descobrir o principio de unidade das religiões.
Realmente é assombroso acompanhar a marcha da idéa religiosa, semelhante a uma grande corrente aryana, desde o seu berço asiatico, e através das mythologias dos antigos povos gregos, latinos e germanos, até ao christianismo, em que Agnus, o cordeiro immaculado, parece não ser mais que uma leve alteração morphologica de Agni.