A sciencia moderna está já dirigindo as suas vistas para a America, no indefesso empenho de encontrar a unidade das origens da civilisação. De Chavencey, estudando{71} o mytho americano de Votan, encontrou n'elle uma contrafacção, á parte o elemento indigena já introduzido, das legendas asiaticas de Phra-Ruang e de Pyú-Tsau-ti[[81]]. «Tem-se notado, observa Maury[[82]] a analogia de muitas tradições religiosas dos antigos mexicanos e de algumas crenças christãs ou buddicas, a conformidade de certos monumentos e symbolos da America central com figuras e emblemas christãos e japonezes. As populações boreaes encontravam um caminho já traçado para o novo mundo pelo estreito de Behring e ilhas Aleutianas.»

Especialmente pelo que toca á religião, a philosophia applicada á Historia é muitas vezes accusada de acintemente demolidora. Esta accusação, na materia de que vimos tratando, refere-se principalmente á vida de Christo. Ora é preciso observar que deve haver n'este assumpto tres pontos distinctos, correspondentes a tres elementos differentes: a theoria de Christo, a legenda de Christo e a vida de Jesus[[83]]. Christo, estudado na pureza sublime da sua vida, merece o respeito de todos os philosophos. «De alguma crença que a critica racional nos despoje, diz Stuart Mill[[84]], resta-nos Christo; figura unica,{72} que se eleva tanto acima dos seus precursores como dos seus successores, e d'aquelles mesmos que tiveram o privilegio de receber directamente de sua bocca o seu ensinamento.»

Desde o momento em que o espirito moderno tratou de procurar nos factos sociaes a estabilidade de principios que rege os phenomenos naturaes, querendo assim reduzir todas as nossas concepções fundamentaes a um estado de homogeneidade e, portanto, dar á philosophia um caracter definitivo de positividade, a Historia, fornecendo uma grande base para os estudos de observação, veio occupar um ponto culminante na esphera dos conhecimentos humanos. Esta superioridade de posição, que a Historia conquistou na hierarchia das sciencias, provém da necessaria relação que ha entre os factos e as idéas. De modo que se póde dizer que um grande numero de sciencias, se é que não são todas ellas, concorrem de mãos dadas para erigir o vasto monumento da Historia. As obras colossaes precisam de um immenso concurso de trabalho; quando Cheops e Cephten pensaram em levantar as duas mais altas pyramides do Egypto, diz-se que cêrca de cem mil homens carreavam materiaes. A Historia é tambem uma pyramide. E assim como as do Egypto dominavam com as suas quatro faces os quatro pontos cardeaes do mundo, a Historia abrange com a sua vista de aguia a esphera dos conhecimentos humanos.{73}

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((1878))


[[1]] Referimo-nos principalmente ás antas ou dolmens. Vide Adolpho Coelho, Algumas observações ácerca do diccionario bibliographico portuguez e seu auctor, pag. 10, e Augusto Filippe Simões, Introducção á archeologia da peninsula iberica, pag. 76.

[[2]] Historia universal, introducção, cap. VII.

[[3]] Introduction a la philosophie de l'histoire de l'humanité.

[[4]] Les origines de la civilisation, cap. IX, traducção franceza de Ed. Barbier.