O NATAL

Os chefes de familia, que logram contar vinte annos de praça conjugal, devem hoje chamar seus filhos á sala do jantar e dizer-lhes, indicando a meza:

—O Natal foi alli.

Que ss. ss.as os moços pennujentos oiçam reverentemente a voz de seus paes, e desçam olhos de commovido respeito ás mudas tabuas onde o Natal vaporou as mais succolentas iguarias, e caldeou a mais serena embriaguez do genero humano nas garrafas scintillantes de vinho e luz.

O Natal foi alli.

Tudo quanto de indigestamente pesado póde haver para o mais vigoroso estomago, aqueceu as loiças que se deixaram cahir de maguadas das mãos dos criados, quando souberam que certo dia o menino mais velho tivera uma gastrite por haver comido uma gemma d'ovo depois da meia noite. E tiveram rasão. A espada de D. Pedro IV prefere a inactividade do Museu de S. Lazaro[{168}] a lampejar ao reflexo do sol em dia de solemne patuscada militar no Campo de Santo Ovidio.

Viram o throno deserto dos cortezãos do seu tempo e não quizeram sobreviver á ruina do estomago portuguez. Os homens contemporaneos d'aquellas loiças comiam uma gallinha em dia de natal, e um perú em dia d'anno novo. Os filhos, que simplesmente herdaram o nome paterno, sentem-se affrontados com a digestão d'um ovo, e estão adoptando á meza os legumes porque a teia de aranha onde caiem os alimentos não consente mais que uma folha d'alface, e uma vagem de conserva.

Por isso se suicidaram as amplas terrinas de ha vinte annos, e não resta da primeira festa portugueza mais que este epitaphio na bocca dos velhos:

—O Natal foi alli.