Mas, sendo um pouco mais profundo,—porque o folhetinista tem obrigação de fazer a anatomia das intenções—vejamos se não haverá porventura n'este caso, que denota á primeira vista bons pulmões, bom sangue e boas pernas, algum proposito recondito, algum plano philosophico, que revele, em segunda leitura, que os cavalheiros de Lisboa são tão intrepidos de espirito como de corpo.
Leriam ha pouco tempo o Roman comique de Scarron, o Diable à Paris de Eduardo Ourliac, L'Angleterre et la vie anglaise de Affonso Esquiros, o Grand homme de province á Paris, de Balzac, e enthusiasmar-se-iam com as comicas aventuras dos actores ambulantes e dos musicos das ruas?
Não é de suppôr que rapazes que se encostam ás vitrines do Chiado, que frequentam o Gremio, que vão a S. Carlos, que não faltam á espera dos touros, que costumam passar o verão em Cintra, que calçam bota de polimento, que se frisam no Baron, que se vestem no Keil, se aguentem, por mero capricho, n'uma caminhada[{175}] de sul a norte, que os obriga a viver entre montes, durante dois mezes, n'uma barraquinha de campanha, onde mal se póde lêr a Correspondencia de Portugal e onde seria impossivel desdobrar o Times.
E tanto isto não é provavel, que dois dos peregrinos do rancho desanimaram a meio da jornada com saudades do robe-de-chambre e do Martinho.
Se o intento fosse um simples devaneio d'espiritos moços, uma extravagancia dos vinte annos, haveriam retrocedido todos, e affogariam o seu desalento n'um copo de champagne, que é como os rapazes costumam enterrar ruidosamente qualquer ideia que lhes morre...
Mas tres d'elles, os snrs. A. C. da Silva Castro, Estevão Ribeiro da Silva e Pedro de Campos Menezes, avançaram sempre, chegaram ás Caldas da Rainha, demoraram-se em Coimbra, acampando no rocio de Santa Clara, e devem ter já partido do Bussaco.
Segue-os uma carroça, puxada por um macho. Na carroça vae o chalet ambulante, dobrado em fórma de biombo, e sentado em cima da lombada do chalet o cosinheiro, que, precisando de trabalhar com os braços, se dispensa de trabalhar com as pernas. É o Sancho Pança da aventura, que se presume a assistir áquelle acto da Cora em que vae passando em frente do espectador o panorama do Mississipi, porque vae vendo regaladamente as margens do caminho mettido dentro da sua mitra d'algodão branco, do seu avental de linho e dos seus oculos de metal amarello.
Elle é o unico do rancho que se sente despreoccupado,[{176}] porque apenas tem uma ideia: a cosinha. Os patrões vem andando e pensando, porque esta viajata representa para elles uma lucta entre as velhas tradições e as ideias modernas, entre as forças do homem e as forças da machina, entre os artelhos e os rails, entre a vontade que manda mover e a locomotora que faz andar.
O empenho d'estes cavalheiros é naturalmente mostrar que o homem é mais completo do que o suppõem; que o progresso é uma simples mistificação de preguiçosos que querem viver na indolencia, e viajar sentados; que os caminhos de ferro são uma patarata engendrada para negocio d'uma companhia, e finalmente, que a raça latina tem ainda sangue rico, alma arrojada, altura de pensamentos, colorido nas creações, valentia nas empresas.
Querem pois supplantar as invenções modernas, dispensando-as, e tanto o conseguiram, que de Lisboa até Coimbra entretiveram-se a ensinar a andar o caminho de ferro.