Por um esforço pouco vulgar chegaram a dominar a propria curiosidade: ha um mez que não recebem cartas nem jornaes. Não sabem nada do que se passa no seu paiz, porque a direcção do correio é tão pouco intelligente que os não manda procurar onde estão. Mais um triumpho para elles! Então o correio foi feito para entregar as cartas a quem lh'as pede ou para as ir entregar a quem as deve receber? Nada sabem do que ha trinta dias acontece em Lisboa, nem siquer teem tido[{177}] noticias da cotação dos fundos hespanhoes. E fallar-se sempre da rapida transmissão do pensamento, de telegraphos electricos, de cabos submarinos, de paquetes a vapor! Ha um mez que inteiramente ignoram o que se pensa no Chiado, e, visto que já os incendios começavam quando partiram, não sabem ao certo se Lisboa ardeu, e se já se encommendou algum marquez de Pombal para reedifical-a.

Diz-se que o progresso tem levado commodidades a toda a parte, desbravando florestas, povoando desertos. No Cartaxo desejaram sorvetes e não os obtiveram; em Chão de Maçãs pediram toicinho do céo e alcançaram a certeza de que o céo em Chão de Maçãs era mahometano.

Apregoa-se a diffusão da instrucção publica, a creação de cadeiras primarias, e na Pampilhosa, querendo sentar-se a tomar a fresca, offereceram-lhes uma cadeira em tão mau estado, que de nenhum modo se podia considerar primaria. Em Alfarellos quizeram passar a noite a lêr, e estando Alfarellos a dois passos de Coimbra, e sendo Coimbra, segundo o pensamento de Heitor Pinto, a cidade d'onde irradiam as virtudes e as lettras para todo o reino, como do centro da esphera sahem as linhas para a circumferencia, apenas conseguiram haver em Alfarellos um reportorio de 1872.

Pois então, n'este seculo de extrema e assombrosa mobilidade, ha no mappa de Portugal uma terra que em agosto de 1873 se governava pela chronologia de 1872, dormindo um anno inteiro![{178}]

Um dos nossos guapos viajantes sentiu-se no caminho um pouco embaraçado com um calo no dedo minimo do pé direito. Então ainda ha calos! E os jornaes a assoalharem que a pomada Galopeau é o verdadeiro pedicuro descoberto até hoje! Um pouco crestados pelo sol, desejaram refrigerar a pelle. Onde estava esse famoso Charles Fay, inventor do pó de arroz preparado com bismutho? Banharam as faces n'uma fonte, que serpejava por entre rochas, e saudaram enthusiasticamente mais uma vez o passado, porque a agua é tão antiga, que já o diluvio foi... d'agua! A frescura do liquido constipou-lhes os dentes. Reclamaram a presença do snr. de Vitry, chirurgien dentiste de leurs majestés trés fideles, e o snr. de Vitry não os ouviu chamar na sua casa da rua do Ouro em Lisboa! Pois se o pensamento se transmitte com a apregoada rapidez parecia que... Em Souzellas viram á porta de uma tenda, invadida por dous meirinhos, o pobre do logista que se lamentava da desgraça a que o ia redusir a penhora.

Perguntaram:

—O que tem aquelle homem?

—Quebrou.

E os jornaes de Lisboa a dizerem que o snr. Carvalho Junior inventou um efficaz emplastro para soldar as pessoas quebradas!

Ó suprema irrisão! Ó verdadeiro triumpho ganho pelo passado sobre o presente! indubitavel victoria do homem sobre a machina! E vós, illustres bohemios d'uma crusada santa, que ides dilatando a fé e o imperio,[{179}] dizei-me, sinceramente, intimamente, se este não é o verdadeiro fim da vossa rude jornada! Podeis, ao longo do caminho, ir cantando a velha canção dos actores ambulantes: