Veut-on savoir d'ou nous venons,
La chose est trés-facile;
Mais, pour savoir où nous irons,
Il faudrait être habile.
Sans nous inquiéter, enfin,
Usons, ma foi, jusqu'à la fin
De la bonté céleste!
Il est certain que nous mourrons;
Mais il est sur que nous vivons:
Rions, buvons!
Et moquons—nous du reste!
e eu guardarei ufano o diploma de—être habile—porque descortinei a vossa intenção recondita.
Até á vista, e felicidade![{180}]
O RELOGIO...
É o meu relogio que me dá assumpto para este folhetim...
Aqui está o meu pobre amigo, tão esquecido por mim em horas de felicidade, e tão esquecido por todos os homens. Não tenho mais leal conselheiro, companheiro mais dedicado. É uma especie de consciencia que metti no bolço. Quando ella falla, é preciso attendel-a. E todavia, se uma nuvem de desgosto me enoitece o horisonte da vida, se um cuidado me preoccupa, se um sobresalto me traz perplexo, esqueço-te, pobre amigo, não chego a lembrar-me de que te trago conchegado a mim, e de que, obrigando-te ao silencio para que tu não foste feito, sou cruel para ti, porque te condemno a ouvir as palpitações vertiginosas do meu coração inquieto!
Não te dou movimento, porque inteiramente te esqueço. Condemno-te á ociosidade, e, privando-te de[{182}] trabalho, não reparo que é sobremodo doloroso estar a gente triste e calada! Que queres? É o egoismo dos homens; somos todos assim!
Temos de partir para uma viagem. Nossa mãe está doente, e chamou-nos pelo telegrapho, porque não quer morrer sem nos abençoar e beijar. Estamos sós, n'um quarto d'hospedaria. Os criados, que não comprehendem o que é a ancia de receber o ultimo beijo materno, deitaram-se, extenuados de trabalho, e nem siquer estão sonhando que teem ordem para nos chamar ao alvorejar da manhã. Nós estamos deitados sobre a coberta, já com o nosso fato de jornada, fumando, fumando, inquietos, rememorando os dias saudosos da infancia, em que nossa mãe, áquella mesma hora, nos ensinava a resar ao anjo da guarda, ou as noites em que acordavamos sobresaltados, e acudia ella a limpar-nos o suor da fronte, e a conchegar-nos a roupa aos hombros. Sobre a commoda arde tristemente a vela que ha já duas horas precisava de ser espevitada. A um canto está a nossa mala, com o chapéo de chuva em cima. Reina um silencio funebre no quarto. Nem ao menos se sente o palpitar do relogio no bolço. Todavia trabalha, mas parece que intencionalmente se reprime para nos não perturbar. N'aquella casa de gente desconhecida, o nosso unico amigo é o relogio. Está vigiando, trabalhando para nós. Consultamol-o. Ainda é cedo... Parece dizer-nos que estejamos tranquillos porque elle não adormecerá. Continuamos pensando. Agora nos lembra a pallidez orvalhada de lagrimas com que nossa mãe se[{183}] despediu ao partirmos. E ella, estamol-a vendo na heroica resignação das mulheres que sabem sacrificar o coração ao dever; é ella, que do topo das escadas de pedra, anciada, fazendo um esforço supremo, nos diz ainda: