—Parte, filho, é preciso!
Depois recolheu-se de golpe, porque já lhe faltou a coragem de nos advertir de que eram horas, muito horas...
No seu coração de mãe, relogio que só a morte póde emmudecer, havia soado a hora fatal da despedida. E nós partimos, sósinhos, guiados pelo rustico almocreve, sósinhos—com o nosso relogio. Não havia sol. Não poderiamos conhecer as horas pelas sombras das arvores. O almocreve, que se não podia orientar do curso do tempo, porque o céo estava escuro como o nosso coração, ia-nos perguntando de legua em legua que horas eram. Consultavamos então o relogio. «É meio dia»: «Pois olhe, volvia o almocreve, quando é meio dia, e o ar está claro, bate o sol n'aquelle cabeço.»
Meio dia! A hora em que nossa mãe se levantava da sua costura para resar comnosco emquanto se não extinguia o echo da ultima badalada no campanario da aldeia! Quem nos disse isto tudo? Foi a memoria? Não foi. Nós iamos entorpecidos pela dôr, não ouviamos horas que nos evocassem recordações, a solidão era immensa, ao longe serras, ainda mais ao longe serras... Foi o relogio, o pequenino coração que ia sentindo por nós. Se até o almocreve, que vive sempre só, no medonho[{184}] deserto das estradas, faz do cabeço das montanhas relogio, para que o caminho lhe vá fallando e dizendo: «Ante-hontem passaste aqui mais cedo! D'uma vez, á mesma hora, encontraste aqui aquella pegureira, espavorida com medo dos lobos»!
Até elle, aquella alma rude, precisa da companhia do relogio! Por isso o vae pendurando de serra em serra, fazendo do granito mostrador, e dos raios do sol ponteiros...
Mas emfim nossa mãe está agora doente, moribunda talvez. Que funda melancolia nos está dando a saudade! Facto inexplicavel! A ancia de partir foi vencida pela ancia de recordar. Iamo-nos esquecendo pelo muito que nos estavamos lembrando... Dormem todos no predio; melhor diriamos dorme tudo, porque os mesmos moveis parece conhecerem a noite... Engano! Não dorme tudo. Vela o relogio. Abrimol-o. «São horas de partir!» clama elle. Acreditamol-o como ao melhor amigo. Saltamos do leito. Gritamos pelos criados. Os criados dormiam. Só o relogio velava, é pois certo, porque nós mesmos estávamos atordoados pela somnolencia da saudade...
Mais um momento, e não chegariamos a tempo d'alcançar a diligencia. E ámanhã seria já tarde, talvez. Nossa mãe haveria morrido, quer dizer, a nossa falta havel-a-hia assassinado, mais cruel que... a doença.
Quando todos dormiam, foi o relogio que nos avisou...
É portanto elle que nos recorda os nossos deveres,[{185}] que nos diz quando havemos de entrar para o nosso escriptorio, que sustenta em grande parte a nossa harmonia domestica, advertindo o criado de que é chegado o momento de ter lustrosas as botas, e a criada de que já vão sendo horas de jantar...
Só elle nos falla verdade n'esta epoca essencialmente insidiosa. Insidiosa, é o termo. Pois não está recebendo o principe de Bismark, todos os dias, cartas perfumadas de almiscar e outras essencias irritantes para o systema nervoso? Pois em Palermo, onde canta actualmente uma prima-dona formosissima, não lhe arremessou outro dia aos pés certo admirador despeitado um bouquet que, ao chofrar no palco, rebentou como metralhadora? Querem maior insidia? Chegaram a envenenar as duas coisas mais graciosas da creação, as flores e os aromas; não exijam portanto lealdade na mulher.