N'este cataclismo ainda se não afundou o relogio: é a unica tabua que resta aos naufragos da sociedade. O relogio, a despeito da corrupção geral, representa e representará o dever. É por isso que no Memorial de familia, de Emilio Souvestre, o avô lega ao neto o seu relogio, escrevendo no testamento esta clausula: «Deixo a Leão o meu relogio d'ouro que nunca se desconcertou durante vinte annos. Quando elle attentar nos ponteiros, que, sempre obedientes ao impulso da machina, marcam fielmente as horas, recordará que a submissão e a observancia são a primeira condição do dever.»

O relogio é filho do egoismo do homem, e victima do mesmo egoismo que lhe deu vida. Nos tempos primitivos[{186}] bastava o quadrante solar para medir o tempo. Paulo e Virginia nem do gnomon se serviam. «São horas de jantar, dizia ella, porque as sombras das bananeiras já lhes dão pelo pé» ou então «É noite; os tamarindos fecham as folhas.»

As ampulhetas ou relogios d'areia remontam-se á mais nubelosa antiguidade egypcia. Na Grecia usavam-se os clepsydros, relogios d'agua. «Vós disputaes a minha agua» dizia Demosthenes, phrase que dá a entender que a duração dos seus discursos era marcada por um clepsydro.

Meado o terceiro seculo antes de Christo, Estésibius, d'Alexandria, construiu um clepsydro notavel por ser mais complicado que os primitivos, que se limitavam a um vaso com um orificio na parte inferior, por onde se coava a agua gotta a gotta. Depois o homem entrou de profundar os segredos da natureza, e de se querer apropriar de quanto n'ella havia de grandioso.

A ideia do relogio era innata á creação. Linneu comprehendeu-o organisando o relogio botanico pelas horas em que certas flores abriam e fechavam. Mas tanto isto é verdade, que os primeiros relogios eram construidos com os primitivos elementos da terra: com o sol, os gnomons; com a agua, os clepsydros; com a areia, as ampulhetas. Onde quer que faltassem recursos artisticos, ahi se podia medir o tempo: no mais alto da serra, com um raio de sol; nas solidões do deserto, com um punhado d'areia, e no deserto do mar com uma gotta d'agua.[{187}]

O espirito humano progredia. Chegou a vez do homem dizer á terra: «Até agora creaste tu; agora quero eu crear;» E trabalhou, e empenhou-se em dispensar o sol, a agua, e a areia; inventou o pendulo, conseguindo que a força motora fosse constante. Galileu ou Huyghens, a historia designa-os a ambos, deu este grande passo.

Mas ainda não estava completamente resolvido o problema. Era preciso inventar mais.

Em viagem, quem, por obra do homem, havia de indicar ao homem o curso do dia ou da noite? O sol ou as estrellas. Todavia nem o sol nem as estrellas as fez elle. Pensou, luctou de novo, e descobriu a molla em spiral, que substitue o peso motor pela elasticidade que tem. Ficaram portanto descobertos os relogios d'algibeira. Podes partir, peregrino; já conseguirás saber nas solidões do teu caminho se a noite vae adiantada!

E és tu que o dizes a ti proprio...

Realisaste, finalmente, o teu sonho. Conseguiste roubar ao relogio a individualidade que a natureza lhe deu, e reflectir n'elle a tua propria individualidade.