Onde iremos nós levar a nossa mysanthropia, fugindo o congresso do que mais selecto havia em ambos os sexos na sociedade portuense? Mais selecto não podemos dizer, porque faltavam muitas pessoas da melhor[{27}] roda contemporanea, entre as quaes bardos que hoje se diriam satanicos, e que antepunham o contacto das garrafas á contemplação de mulheres formosas.
Esses taes leram na vespera o seguinte annuncio inserto na Chronica constitucional do Porto:
«Amanhã sabbado 12 do corrente, se abre o novo Caffé do Commercio na rua nova dos Inglezes aonde se encontrarão diversidades de Vinhos e Licores engarrafados, Nacionaes e Estrangeiros.»
A novidade do acontecimento e a perspectiva de lauto beberete devia de attrahir numerosa concorrencia ao Caffé do Commercio, que pela primeira vez se abria n'essa noite na casa onde actualmente está o escriptorio da companhia de seguros Garantia.
Em conformidade com a opulencia botiquineira d'esse tempo, o novo Caffé do Commercio tinha cortinas de chita e mostrava sobre o balcão uma longa fila de copos, voltado para cima o fundo, que servia de base a um limão.
Como ainda então não estivessem arruinados pela dyspepsia os estomagos nacionaes, e houvesse portuguezes que bebiam um quartilho de geropiga com o simples condimento d'uma azeitona, eram minguadas as docerias nos botiquins e ordinariamente limitavam-se a melindres e bichinhas. Quando porém os negociantes da baixa se sentiam enfraquecidos á hora do lunch ou da merenda, não se repletavam com assucarices de nenhuma substancia. O petisco mais em voga eram ostras que vinham de Lisboa já cosinhadas no unico vapor de carreira[{28}] que então havia, e que se comiam no novo Caffé do Commercio, a 60 rs. cada uma.
Calcule-se do consumo dos liquidos n'aquelle estabelecimento tão prosperamente aberto, depois de saber-se que os mais appetecidos e procurados comestiveis eram ostras, mollusco sobremodo irritante para o systema nervoso, e talvez causa primaria da depreciação da geração actual.
Mas voltemos á abertura do novo Caffé solemnisada na rua dos Inglezes com vistosa illuminação que sobrelevava as demais.
Apollo presidiu em espirito á bacchica tunantada.
Os vates empunharam as lyras e, por muito costumados á dedilhação, até das bambas cordas tiraram muito correctos sonetos, mais lisongeiros ao duque de Bragança que agradecidos ao proprietario do botiquim, não obstante sentirem enervado o braço pela acção cada vez mais intensa dos liquidos.