Parece que deposta a oitava-rima, por inopia de pojantes Camões, a fórma de metro mais patriotica n'aquelles tempos era o soneto, que, por muito familiar que fosse a festa, havia forçosamente de ser allusivo aos acontecimentos politicos da epocha.

Um dos cysnes levantou o pescoço e modulou este soneto, que logo foi distribuido pelos circumstantes:

Se brama pelos Ceos da Liberdade
O espantoso trovão da Tyrannia;
Se cobrem trévas a Lusa Monarquia,
Fulge o clarão da antiga Heroicidade.[{29}]

Quanto cresce a despotica maldade,
Assim dos povos o valor porfia,
Com o Chefe de Bragança por seu guia
Enchem d'assombro a vindoura idade.

Dias felizes, dias venturosos,
Augura-nos o Ceo, em dons fecundo!
Maria e Pedro nos farão ditosos.

Daremos nobre exemplo á Europa, ao Mundo:
Que os Povos de ser livres sequiosos,
Calcam do despotismo o rosto immundo.

O segundo soneto afina pelo mesmo tom emphatico;

Thronos ha tido o Mundo, que producto
Foram tão só de Leis, e sangue herdado,
Quaes desde longo tempo celebrado
Os gosa Portugal indissoluto.

Outros não foram mais que excelso fructo
Da Justiça, e do Merito elevado;
Qual Viriato, e qual Sertorio honrado,
Reis ou Chefes por solido atributo.

Taes houve, e ainda os ha, a quem Cobiça,
Ou Acazo erigio, contra seu Dono
Fervendo a Execração que a Raiva atiça!

A Segunda MARIA em seu abono,
Em mais bases que as Leis e que a Justiça
Tem sobre corações firmado o Throno.

O terceiro soneto troa assim:

Se em nossa idade, ó Jupiter, quizeste
Com terrivel aspecto olhar a terra,
Se os males todos da sanguinea Guerra
Surgir do negro Barathro fizeste:[{30}]

A PEDRO tu doaste um dom celeste,
Que ao fero Usurpador confunde e aterra:
Monstro dos monstros, que no peito encerra
Tartareas serpes que vomitam peste!

PEDRO, d'altas virtudes coroado,
Olha nos Luzos inconcusso abono
De elevar sua Filha ao Solio herdado.

Nunca Lisia hade ter intruzo Dono;
Seu Rei é como os Numes adorado,
E tem nos corações firmado o throno.

Falta o quarto soneto;

Nos faustos Ceos de Lisia triunfante,
A Liberdade o grito levantando,
Ferros ao Despotismo vai lançando
De têmpera mais dura que o diamante.

Do Throno o esplendor salva constante
D'um principe brioso ao nobre mando:
O Solio, quasi em terra, sustentando,
Esmaga a Hydra de aspecto vacilante.

Oh Principe ditoso, exulta, e vive,
Para que esta Nação por Jove eleita
Dos teus Decretos os seus bens derive.

Da Patria, como Pai a olhar-te affeita,
De Lisia, que na gloria hoje revive.
Do salvo Povo, os corações acceita.

Não obstante o fallar-se de corações nas composições precedentes, parece que a viscera mais attendida na bambochata era o estomago, e a illuminação por igual abundante dentro e fóra.[{31}]