Não obstante divergem as opiniões sobre a qualidade e nome dos nubentes. Não os nomeia o Flos sanctorum do mosteiro de Alcobaça, copiado por D. Rodrigo da Cunha e outros doutos varões, com quanto circumstanciadamente conte do milagre. D'esta lacuna procede todo o embaraço, porque o padre frei Luiz dos Anjos os nomeia Cayo Carpo, natural da Maya, e Claudia Loba, do Porto; e D. Pedro Seguino, bispo d'Orense, escreveu que o cavalleiro se chamava Rivano e a dama Valeria.

Ao noivo uns o dão como liberto de Augusto Cesar, e outros como filho d'algum poderoso regulo das Hespanhas. Ora a nobreza da mulher, suppõe Cerqueira Pinto,—que persiste em chamar a elle Cayo Carpo e a ella Claudia Loba,—que era das primeiras e melhores: «no conselho da Maya, que he, e foy sempre contiguo á mesma Cidade, (do Porto) e onde está situado o lugar de Matosinhos, havia cavalheiro capaz de casar com mulher daquella nobre familia...» Pelo que se vê, a villa de Mathosinhos era alfobre de preclara nobreza em que floreciam varias fidalguissimas Claudias. Hoje, se Claudias ha em Mathosinhos, trazem saia pelo joelho e seguram vigorosamente contra a ressaca as esgrouviadas banhistas que vão molhar no mar os nervos doentes.

Ó decadencia das Claudias, e outras!

Não vae o nosso amor pela antiguidade até averiguarmos cabalmente o verdadeiro chamadoiro e nascimento dos noivos de Mathosinhos, e até, para conciliarmos[{227}] os consultissimos historiadores, não temos duvida em matrimoniar Valeria com Cayo Carpo e Rivano com Claudia Loba. D'esta maneira, ficariam por igual comprazidos os chronistas que divergem sobre o nome do cavalleiro que sahiu ao mar, e da noiva que ficou em terra.

Do prodigio resultou a total conversão do logar de Mathosinhos á fé catholica, e, segundo diz Cerqueira Pinto, de toda a nobreza do Porto e da Maya, que estava presente. Tambem lembra o historiador que o nome de Leça, dado ao rio, poderia derivar da alegria devida á aproximação da nau que conduzia S. Thiago ou á plenaria conversão d'aquellas gentes.

É pois certo que o logar de Mathosinhos, onde o leitor descuidosamente passeia o seu aborrecimento em mezes de banhos, é por mais d'um respeito celebre, porquanto no 1.º de abril do anno de 44 se operou o prodigio que vimos historiando, e d'ahi a oitenta annos aportou áquella praia a imagem cuja historia Cerqueira Pinto particularmente escreveu no livro de que havemos extrahido estes apontamentos.

A par da tradição religiosa, que deriva das bodas de Cayo Carpo com Claudia Loba, corre a tradição nobiliaria, como se os homens, ciumentos das glorias da Igreja, quizessem sequestrar-lh'as em grande parte para satisfazer sua vaidade.

Conhecel-o-ha o leitor, se me quizer acompanhar a Benavente, districto de Evora, onde encontraremos n'uma das torres da matriz as armas dos condes d'aquelle[{228}] titulo, as quaes armas representam cinco conchas em escudo liso.

Este é o ponto em que a tradição religiosa prende com a tradição nobiliaria.

Do cavalleiro de Mathosinhos, predestinado para tamanhos prodigios, qual foi o de galopar por sobre as ondas muito melhor do que nós pelas nossas estradas, procede a familia dos Pimenteis, de Traz-os-Montes, aos quaes Pimenteis appellida de nobres um chronista. Não sei se todos os ramos de Pimenteis teem iguaes fóros de nobreza e motivos de prosapia. Os Pimenteis de que eu descendo foram homens honrados e obscuros, que nem com titulos litterarios se podem abonar, o que prova que os meus antepassados tiveram mais juizo que eu.