«Consiste pois o principal d'este admiravel successo, em que voltando S. Thiago de Hespanha a Jerusalem, com os sete discipulos, que na provincia interamnense da Lusitania convertera, e havendo triunfado em martyrio n'aquella mesma cidade, em que Christo remira o mundo, emprehenderam os mesmos discipulos, tanto por anterior recommendação do santo, como por divino impulso, reconduzir o seu sagrado cadaver a esta parte, para ter o jazigo, na em que fôra missionario apostolico.
«Embarcados com elle em Jope, porto maritimo da Palestina, e navegado em breves dias para o Occidente, o Mediterraneo, costeando pelo oceano a Lusitania, com rumo direito a Galiza, parou como em calmaria a[{223}] embarcação, á vista do venturoso logar de Mathosinhos, não por faltar-lhe o vento, pois vinha celestialmente equipada, e tanto de divinas auras favorecida, que lhe levou brevissimos dias a derrota sendo d'extensão bem dilatada; mas por permittir o céo, que n'esta escala tivesse S. Thiago por refresco uma salva real, como teve na conversão do copioso gentilismo, que n'aquella praia se achava então celebrando os regios desposorios referidos (uns que se celebravam n'esse dia em Mathosinhos) em justas, torneios, lanças, e outros applausos ao antiquado uso, que n'estas partes haviam introduzido os primeiros adventicios dominantes gregos.
«E sendo n'este festejo um dos jogos celebrados, o a que chama o Flos sanctorum antigo de Alcobaça, andar bafordando[3] porque os cavalleiros na praia em concertados meneios entravam pelas candidas espumas, que ao mar costumam servir de crespo bordado ao ceruleo adorno, com que gallea; succedeu por alto mysterio, que do noivo o cavallo desperando do domante freio os regulados preceitos, se arrojou ás ondas, intrepido, com tanto fogo, que julgavam magoados os circumstantes ao cavalleiro desgraçadamente perdido; porém elle prodigiosamente venturoso chegou sem perigo a abordar á nau, em que com os seus discipulos estava o corpo de S. Thiago, e lhe serviu de segura tabua a salvar-se, e a todo o logar do naufragio gentilico, por ir Deus assim dispondo aquelle especioso terreno para[{224}] soberano deposito da veneravel imagem de Christo Crucificado.
«Junto da nau, entre os confusos assombros de vêr-se na fluida inconstancia das anfuas, como em terra firme, seguro, notou e advertiu o cavalleiro, que não só chegava de maritimas conchas matisado: mas que no mesmo perigo achava quem o livrasse do susto na milagrosa exposição do Mysterio e instruido nos da Fé, recebido o sagrado baptismo por um dos santos discipulos administrado, impresso bem tudo no seu conceito com prazer inexplicavel convertido, e por aquelle sacramento illustrado; advertido finalmente do mysterioso final, que as conchas haviam de ficar representando feito missionario apostolico, triumphante da culpa, e dos mares para elle já todos de graça, voltou em airosa carreira pela liquida torrente ao mesmo sitio, d'onde tinha sahido naufragante.»
Não cuidemos de saber como Sam Thiago se refrescava com uma salva real, nem commentemos os pasmos do cavalleiro ao vêr-se matisado de maritimas conchas. Esmiuncemos que regios desposorios eram esses que se celebravam na praia da villa de Mathosinhos.
Parece que a palavra regios se não quer referir unicamente ao fausto das bodas, que foram sobremodo lusidas como inculca o citado Flos sanctorum antigo de Alcobaça, cujo texto vem citado no Catalogo dos bispos do Porto[4], de D. Rodrigo da Cunha, a pag. 20,[{225}] part. 1.ª «... e a Cavalaria, e as Donas, e a gente moita, e cada um fazia o que sabia, que pertencia á boda: e os huns lançabão ao tavoado, e os outros bafordabom, mas entre estes que bafordabom, bafordava hi o noivo.» Hoje não se ostentam nas bodas proezas de cavallaria: os convidados esgrimem contra os taboleiros, e os noivos esperam que os convidados devastem os podins para se verem livres dos importunos parasitas de luva branca.
Mas, tornando ao conto, escreve ainda D. Rodrigo da Cunha: «Não é só o Flos sanctorum de Alcobaça o que faz menção d'este milagre, que deu occasião a se converterem tantas almas n'este nosso Bispado, e em lugares tão visinhos ao Porto. No Breviario antigo da Sé de Oviedo, se acha um hymno, que se costumava a resar na festa de Sanct'Iago aos 25 de julho, em que claramente se faz allusão a elle. Dizem os versos do hymno:
Cunctis maré cernentibus:
Sed á profundo ducitur;
Natus Regis submergitur;
Totus plenas conchilibus.
Chama ao cavalleiro, que se recebia filho d'El-Rei, porque sem duvida o seria d'algum regulo, a quem os Romanos soffriam estes nomes de dignidades, em quanto lhe não impedia a subjeição a seu imperio.»
Como d'aqui se deprehende, conjectura-se nas passagens citadas a fidalguia do noivo, natus regis, e por isso adjectivaram de regias as bodas.[{226}]