Nós não rompemos por entre a multidão, asperamente, apartando os grupos, para ir vender com um beijo; vendemos e compramos com um beijo, negociando com elle serenamente. A grande culpa de Judas foi falsificar a moeda e lançal-a falsificada na circulação. Nós não falsificamos, é verdade, mas negociamos com dinheiro falso.
Por isso hontem, quando a alleluia passava festivamente de torre em torre, e estralejava nas ruas, e os Judas de palha iam arder estoirando com grande applauso do rapazio, eu ouvi soar a meus ouvidos a grande voz da Rasão, d'esta Rasão que se escreve com letra maiuscula por ser da escola do Infinito, e dizer:
—Se só os que não fossem Judas devessem acender o rastilho, estes monos de palha, que tu ahi vês, não arderiam jámais.[{220}]
HISTORIA VELHA
Sou muito novo para não ter esperanças e muito velho para deixar de sentir o suave doer da saudade. Espero no futuro, na baixa das inscripções, nas bancarotas, nas dictaduras, espero em tudo o que nós podemos ter de bom em Portugal, e não posso deixar de lembrar-me saudoso do passado, das suas crenças, das suas obras, uma das quaes somos nós, das suas tolices tambem.
Se ponho olhos no futuro, refujo de medroso para o passado e apraz-me então conversar com os homens que foram, os quaes me contam coisas maravilhosas e graves. Ora succede tambem que muitas vezes me fico pasmado diante do estendal das relamborias semsaborias das sociedades extinctas, mas nem por isso deixo ainda de querer ao passado, que não nos deu os barões, nem os penicheiros, nem as companhias de caminhos[{222}] de ferro, innovações mil vezes mais causticantes que as supraditas semsaborias. Revivam pois as sinceras crenças e as ingenuas tradições de nossos avós, e conversemos d'elles e d'ellas emquanto a sociedade moderna applaude o espectaculo de si mesma.
O primeiro varão respeitavel que temos a conversar chama-se Antonio Cerqueira Pinto, cidadão da cidade do Porto e academico supranumerario da academia real da historia portugueza, o qual escreveu e estampou a Historia da prodigiosa imagem de Christo crucificado que com o titulo de Bom Jesus de Bouças se venera no lugar de Mathozinhos, na Lusitania.
Posto isto como apresentação indispensavel, vamos direito ao assumpto e oiçamos o Cerqueira n'uma das paginas do seu livro: