Encosta-se a gente com a sua telha a estas cabeças-firmamentos da historia, que ora tinham relampagos de genio, ora negruras de sandice, e vae vivendo. Não se falla por ahi na historia a cada passo? Para se dizer que um sujeito é velho não se lhe chama Mathusalem? Nero para dizer que é mau? Job para dizer que é paciente? Pois muito bem. Desculpemo-nos da nossa telha[{54}] com a historia na mão, e vamos vivendo com o nosso mal, porque para mim é ponto de fé que, sendo telhudos os maiores genios, cuja memoria assombra o mundo, não ha por ahi sujeito que não tenha a sua telha. Os que são mais robustamente organisados sabem que a teem e procuram modifical-a, como se combate uma enfermidade; os que nasceram peior acabados vão vivendo sem se lembrar um unico dia de que nasceram com telha e com lombrigas.

A uns e outros desculpa a historia.

Pouco importa conhecer ou não conhecer a telha,—o caso é tel-a. Hyppocrates veio a dizer na sua que a telha estava na cabeça; Lacaze e Bordeu que estava no diaphragma, e Bichat no coração. Esteja ella onde estiver; o certo é que está dentro de nós e da historia. Isto mesmo de querer dizer onde a telha está, já é telha. O que estou vendo é que os sabios da velha antiguidade eram muito mais perspicazes que os sabios dos tempos modernos.

Nos tempos heroicos, se um sujeito tinha a telha de rinchar de cavallo, dizia-se logo que entrara n'elle o espirito de Neptuno; se a telha lhe dava para começar a cantar de passaro, era por alta vontade de Apollo. Agora a sciencia trata de enxotar a ideia do espirito ruim o apregoa que se o sujeito tem telha é porque nasceu tolo. Isto assim não vae bem. Em remotissimos tempos pagãos desculpava-se a telha de pythonissas e sibyllas com influição divina; agora vem a sciencia e diz que a telha procede de imperfeição do systema nervoso, chamando-lhe[{55}] monomania. Ser monomaniaco é não poder um homem andar e proceder por sua conta e risco. Tanto vale como matal-o. É preciso pois que façamos crusada e nos defendamos com a historia.

Os homens do passado constituem a historia que hoje lêmos, assim como nós constituiremos a historia de amanhã.

Pois folheemos a chronica do passado e ponhamos a nossa telha ao abrigo de censuras, escondendo-nos agachados contra o pedestal de preclaros homens que o mundo festeja, e deixemos assim aberta uma valvula de segurança para respirar a telha de nossos netos.

Comecemos.

O marquez Arouet de Voltaire...

Marmontel conta que fôra um dia, acompanhado pelo seu amigo Gaulard, visitar Voltaire. Encontrou-o na cama, recostado em travesseiras, de barrete de lã na cabeça.

—Encontram-me a morrer, disse com voz debil o philosopho. Venham receber o meu ultimo suspiro.