Telhudo![{60}]

Sua magestade catholica, Filippe V, rei d'Hespanha...

Este soberano passava na cama seis mezes inteiros, sem cortar o cabello e as unhas, sem mudar de camisa. Umas vezes queria que o capellão do paço fosse á camara real dizer missa ás cinco horas da manhã, outras ao meio dia e outras ás oito horas da noite. No inverno mandava abrir de par em par as janellas; durante os ardores caniculares dormia com tres cobertores de papa. Muitas vezes, emquanto dormia, arranhava-se e, quando acordava, começava a gritar que o haviam mordido os vermes. Julgava-se então morto, mordia em si, em seus filhos e na rainha. Perguntavam-lhe o que tinha. Respondia:

—Não tenho nada!

E desatava a cantar.

Telhudo!

Sua ex.ª o marquez de Brunoy...

Quando morreu o marquez pae, mandou despejar em todos os tanques do palacio almudes de tinta d'escrever para que as aguas tomassem lucto; e cobriu de crepes todas as arvores do parque. Era o sachristão da igreja de Brunoy. D'uma occasião, em Conflans, pegou no cadaversinho d'uma criança debaixo do braço, e foi elle proprio sepultal-o. Ahi por 1775 projectava ir de sandalias e esclavina á Terra Santa, fazendo-se acompanhar por sessenta romeiros. A familia pôde estorvar-lhe[{61}] o plano e sua ex.ª o marquez desistiu de ser peregrino para continuar a ser...

Telhudo!

Esta é a grande lição da historia.