Preciso porém dizer-lhes que eu faço distincção entre o antigo folhetim e o moderno folhetim. Um é aristocrata; o outro democrata. O primeiro saiu dos palacios d'Athenas; o segundo dos theatros, dos botiquins de Paris.
O primeiro rojou-se aos pés de Aspasia e Lais quando os gregos as mandavam entrar ao dessert na sala do banquete, justamente ao contrario dos inglezes, que é ao dessert que expulsam as mulheres. O segundo saiu da caixa de rapé do abbade Geoffroy, uma noite, na Opera, quando elle a abria para offerecer uma pitada a mr. Bertin, que o tinha acompanhado. O primeiro recebeu ao nascer o baptismo dos vinhos de Corintho, de Samos, e de Chios. O segundo mergulhou na onda nacarada do Bordeus ou do Champagne.
No seu Grande diccionario de cosinha, recentemente publicado, escreveu Dumas pae: «Foi n'estes elegantes jantares (de Athenas) que se formou a conversação grega,[{66}] conversação ao depois copiada por todos os povos, e da qual a nossa era, asseguro-o, antes da introducção do cigarro, uma das mais vividas e mais rapidas copias. D'aqui a expressão sal attico.»
Assim foi que nasceu o folhetim aristocrata, passando de bocca em bocca, borboleteando entre os convidados, que eram ordinariamente sete, em honra de Pallas, rematado provavelmente com um beijo de Phryné ou com um sorriso d'Aspasia. Depois passou da Grecia para Roma. Os banquetes d'Augusto, conversados por Virgilio, Horacio e Pollion, deviam de ser folhetins delicadamente cinzelados como os cyathos imperiaes. Todavia o grande espirito de Augusto amava a publicidade, e permittia que circulassem em Roma as anecdotas dos seus opiparos folhetins. Conta-se, por exemplo, que certo dia, em que jantava com Virgilio e Horacio, se desculpara d'umas sombras de tristeza dizendo que estava entre os suspiros e as lagrimas, porque um d'estes escriptores soffria dos pulmões e o outro tinha uma fistula lacrimal.
No tempo d'Augusto já o povo romano conhecia a publicidade. Julio Cesar foi o verdadeiro creador do jornal. Nos primeiros tempos de Roma os pontifices escreviam dia a dia os acontecimentos do céo e da terra. Julio Cesar arrancou o privilegio aos pontifices fazendo redigir e publicar os actos quotidianos do senado e do povo. O que, segundo uma bonita phrase de Julio Janin, foi passar duas vezes o Rubicon, desvelando d'uma vez para sempre os tenebrosos mysterios do senado romano.[{67}]
Tão inveterado estava porém entre os patricios o habito do folhetim á mesa, tanto o banquete era mais uma recreação para o espirito que um prazer para o estomago, que Heliogabalo reunia á mesa anões, zarolhos e corcundas para os vêr da galeria e os ouvir conversar durante o jantar. Era um folhetim burlesco, como ás vezes por ahi apparecem alguns, o que Heliogabalo queria.
Fallemos agora do folhetim democrata, nado e creado em Pariz, teudo e manteudo pelo abbade Geoffroy. Nominalmente o folhetim data de 1789, do nascimento do jornal politico em França. Chamava-se assim o espaço em que o jornalista escrevia, na parte inferior da pagina, a resenha dos trabalhos que a Assemblêa deixára indicados para o dia seguinte. Mas o folhetim só começou a existir de facto no fim do seculo XVIII. Um homem de letras havia a esse tempo, ao mesmo passo escriptor e clerigo, o abbade Geoffroy, que, entediado das noitadas do caffé Procope, voluntariamente se desterrou de Pariz. Um certo dia, porém, mr. Bertin, que comprara aos irmãos Baudonim a propriedade do Journal des Debats, lembrou-se de ir procurar o espirituoso abbade ao seu remoto escondrijo. Foi e arrastou-o.
—Que quer de mim, Bertin? perguntou-lhe o abbade.
—Que venha jantar commigo a Pariz, que vá á noite commigo á Opera, e que ámanhã me escreva um artigo para o primeiro numero do Journal des Debats.
O abbade lembrou-se dos seus tempos, e foi.