As palmas, os bravos, as acclamações espiritaram-n'o.[{68}] Ao outro dia fez a critica da opera na parte interior de duas columnas, e a terceira encheu-a Bertin com anunncios de theatro.

O artigo, occupando o logar do folhetim, chamou-se folhetim. O povo leu e gostou. Correu a comprar o jornal, chegou a disputal-o, o successo foi ruidoso, e Geoffroy não só fez a sua celebridade senão que tambem tornou celebre o Journal des Debats.

Geoffroy d'alli em deante applaudia, acclamava, pateava e assobiava no folhetim. O povo seguia-o, acompanhava-o, o povo pensava com Geoffroy e Geoffroy pensava pelo povo. Foi o povo que lhe deu nome, a elle e ao folhetim, e era para o povo que Geoffroy escrevia. Não havia trova popular, caricatura, retrato e lanterna magica—até lanterna magica!—que não reproduzisse o abbade folhetinista. Quando elle morreu, annunciou-se nos collegios a sua morte depois do Benedicite. Geoffroy festejado! Geoffroy applaudido! Geoffroy... cantado!

O successor de Geoffroy no folhetim foi Charles Nodier. Não o excedeu mas não o deshonrou.

Depois de Nodier vieram Etienne Bêquet, Duvicquet, e outros, sempre acclamados e sempre attendidos pelo povo, até que chegámos á revolução litteraria de 1830. Então appareceram Sainte-Beuve, Dumas, Janin e Gautier. O dia que o movimento litterario do romantismo designou ao folhetim foi a segunda feira. D'ahi o chamar-se ao folhetim causerie du lundi, e aos folhetinistas les rois du lundi. Os reis da segunda-feira! Reis,[{69}] porque? Porque empunhavam elles o sceptro da opinião? Porque eram os soberanos absolutos da critica?

Nada d'isto. Porque cada folhetinista da segunda-feira tinha sua côrte d'admiradores, seus salamaleques, e seus subditos. Alexandre Dumas chama a Sainte-Beuve um poeta; a Janin um phantasista, e a Gautier um esmaltador. «Sainte-Beuve,—continua a escrever Dumas pae,—não se quer indispor com ninguem.» «Janin é um escravo do seu estylo.» «Gautier o Benvenuto Cellini do periodo».

Era-lhes o folhetim vitrine onde estadeavam as pompas da sua linguagem finamente rendilhada. Os aulicos da sua côrte eram as mulheres da Opera, os academicos e os virtuoses. Janin pertence actualmente ao numero dos quarenta da academia franceza. Como havia o povo de entender um escriptor que traduzia Horacio e dispunha de recursos para chegar a ser academico?

O folhetim, aristocratisado, era para os erudictos, para as salas, e para os gabinetes. Vestia casaca, lenço branco, e trazia flôr na boutonnière. O povo, que comprehendia Geoffroy, não entendia Janin.

Mas como o jornal depende essencialmente do povo, começou o jornalismo a folhetinisar o noticiario, a fazer espirito, a contar anecdotas, de sorte que o povo comprava o jornal, não por causa do folhetim, como no tempo de Geoffroy, mas por causa do noticiario.

Isto foi, e isto é ainda em França.