Ora eu que não posso ser academico, que não cinzelo a phrase, que não disponho de recursos para ser[{70}] Janin e Gautier, escreverei n'um jornal do povo unicamente para o povo. O folhetim veiu do povo; é preciso portanto que elle vá para o povo, quando o povo o póde receber,—ao domingo. Que vá, que lhe falle de assumptos que elle conhece, que não seja nubloso na phrase, impuro na ideia, que não tenha subtilezas, mas que se faça lêr, que se faça applaudir se poder, e que uma vez por outra nobilite a caixa de rapé do abbade Geoffroy.[{71}]
AS ITALIANAS
A esta hora fogem as que estiveram entre nós. Deixem-me porém fazer uma observação.
As italianas de que vou fallar não são as mulheres de Italia,—são as mulheres da Opera. Não nasceram para viver,—nasceram para cantar. Por isso andam cantando de paiz em paiz, e chegam no inverno, quando a natureza emudece, partindo na primavera, quando as andorinhas regressam... São ricas, opulentas, e todavia o mais que guardam na sua mala são os seus anneis de cabello, as suas fitas e as suas rendas, coisas tão leves que o vento póde agital-as. O thesouro d'ellas está na garganta; lá é que guardam as notas, que trocam em qualquer paiz, sem desconto, antes com o premio das palmas e dos applausos. Cantando atravessam o mundo, as tempestades sociaes, os cataclismos da humanidade. Cabe-lhes perfeitamente a anecdota que se[{72}] conta do guitarrista Phillis, pae da celebre cantora do mesmo nome. Uma vez, durante o Terror, um magistrado chamou-o e perguntou-lhe:
—Como se chama?
—Phillis.
—Que faz?
—Toco guitarra.
—Que fazia no tempo do tyranno?