É a viuva o primeiro cuidado de Camillo quando entra ao seu escriptorio; vae vel-a, fallar-lhe, examinar se lhe faltam as regalias indispensaveis para tornar suave a carceragem.

Á parede interposta ás duas janellas fica encostado o fogão sempre chammejante de intenso brasido; sobranceiras ao fogão pendem uma gravura representando Lacordaire, e um quadro com o retrato de Vieira de Castro. Visinha do fogão está a priguiceira de palha, onde o romancista, ora com os pés no fender, ora resguardados no couvre-pied de feltro, procura repousar-se para o trabalho, intercortado de pequenas pausas, lendo os jornaes do dia e atiçando o fogo.

Entre a janella da direita e a porta, encimada por[{12}] um quadro a oleo que representa as armas da casa de Cadaval, ha uma banca com tinteiro de prata e uma cesta de palha cogullada de cartões de visita, que a meu vêr são o verdadeiro bosquejo historico da litteratura portugueza. O erudicto padre Cardoso, se tivesse conhecimento d'esta cesta, poderia augmentar consideravelmente a sua synopse com os nomes de notabilissimos escriptores portuguezes desde Garrett a esta parte.

Este lanço de parede está adornado com os retratos da familia de Camillo e com um quadro a oleo reputado de Murillo por pessoas sobremodo competentes em assumptos de pintura.

Na continuação d'esta parede encontramos uma etagére de pau preto com romances francezes e inglezes; sobrepostos á etagére os retratos da familia Ouguella, uma paisagem ingleza a oleo, o collar da academia real das sciencias que pertencera a Vieira de Castro, e uma valiosa placa de prata que apresenta em relevo a imagem de Santo Antonio.

Segue-se uma mesa sustentando uma estantesinha entre cujos livros notaremos as obras de Filinto Elysio; sobre a estantesinha ha um relogio; superior um quadro anonymo a oleo, figurando o Eden; aos lados duas gravuras francezas, uma assignada por Desjardins—L'aprés dinée—, outra assignada por Paul Girardin—La Benediction paternelle, e a photographia de José Barbosa e Silva, deputado que foi da nação, e auctor do romance Viver para soffrer.[{13}]

Avultam no angulo duas etagéres com livros e bustos.

Cobrem a parede do fundo duas estantes envidraçadas, sobranceadas por quadros a oleo, bustos de escriptores estrangeiros, rumas de livros, e pela caixa que guarda o chapéo do uniforme de socio da academia pertencente a Vieira de Castro.

Encostada á parede fronteira á porta d'entrada ha uma estante, e pendentes varias gravuras, retratos, e pinturas.

Uma das gravuras assignada por Granville representa o lance do Medecin malgré lui em que Sganarelle diz a Géronte: Voilá justement ce qui fait que votre fille est muette; ha ainda duas gravuras, copias de Horacio Vernet, denominadas Le dernier morceau de pain e Le dernier ami, que o romancista possue desde os vinte annos.