Rainha das canções! ó nobre filha
Do portentoso Lacio, onde inda ovante,
Em mil padrões de fabrica pujante,
A gloria dos Heroes avulta e brilha.

Cento e onze annos vão decorridos desde que o governador general João d'Almada e Mello inaugurou o theatro lyrico do Corpo da Guarda fazendo ouvir aos[{75}] seus governados a primeira italiana, a Giuntini, na opera Trascurato. Desde então para cá quasi todas ellas têm atravessado o theatro do Porto calcando tapetes de flores, rompendo florestas de applausos, colhendo nos loureiraes da scena as corôas que para ellas pendem, e sentindo esvoaçar sobre a fronte o bando alado dos versos, muitas vezes com azas de setim, como aconteceu á Laura Geordano e á Luisa Ponti.

Depois, porque ellas são como as aves migrantes—deixam após si o rastro brilhante do seu talento, e vão levar a Italia aos gelos da Russia, aos nevoeiros da Inglaterra ou aos lagos da Suissa. Vão, algumas vezes desprotegidas, sós com a sua Italia, com a recordação dos explendidos horisontes da patria, das gondolas do seu Adriatico, da sua lingua pittoresca e harmoniosa, que não podem fallar em todo o longo caminho. Vão passando de festa em festa, de theatro em theatro, e ás vezes, depois do espectaculo, algumas d'ellas se sentirão tristes na sua pavorosa solidão, ainda ao pé das flores que lhes atiraram, e das joias que lhes offereceram. É por isso talvez que muitas casam com artistas, para terem um coração que as defenda e um braço que as proteja. Procuram talvez mais um coração que as defenda do que um braço que as proteja. A Schmoehling casou com o violoncellista Mara, cujas faces eram hediondas de variola, perdeu o appellido de seu pae para acceitar o appellido d'este homem, ella, a formosa captiva de Frederico II, só porque o Mara era musico e[{76}] podia entender-lhe as tristezas sem causa, os desconfortos do triumpho...

Uma noite, ao entrar no camarim para poisar os seus bouquets e as suas corôas, recebe uma d'ellas um telegramma de Napoles, porque os talentos mais doces são talvez os de Napoles. Até já um escriptor notou que em Italia parece haver um dialecto para cada classe de gente. O de Veneza convém á sensualidade das cortezãs, o de Florença á elegante nobreza dos grandes senhores, o da Sicilia ás graças simples e rusticas dos pastores de Teocrito, o de Roma á bonhomia maliciosa dos burguezes, mas o dialecto de Napoles é o dos artistas, do povo-poeta, da população que nasce a cantar e que vive a cantar sem saber lêr nem escrever. O que era o pae da italiana? Por ventura um pescador ou então um canta-storie, um canta-historias, a quem os lazzaroni faziam circulo, sempre que elle apparecia na praça.

A diva tem ainda de cantar o final da opera, mas deseja mais partir para Napoles, porque o telegramma lhe diz que o pae está moribundo, do que subir ao proscenio. Não ha transigir com o dever. Vae cantar, a sua voz tem lagrimas, é admiravel, é sublime, e só o empresario sabe talvez que ella está cantando e sentindo dilacerar-se o coração fibra a fibra. E que se está lembrando de que na véspera da festa da Piedigrotta, reunidos na gruta de Pausilippe, o pae cantara para o povo a Finestra bassa, no seu pittoresco dialecto:

Finestra bassa e padrona crudele,
Quanti sospiri m'hai falto gettare,[{77}]

e de que ella mesma cantára com a sua voz infantil e vibrante aquella formosa aria napolitana Te voglio ben'assage, e de que os guaglioni a applaudiram, os guaglioni que em Paris, com o nome de gamins, lhe venderam algumas vezes jornaes á sahida do theatro.

Quem lhe dera a ella encontrar ainda vivo o pae, vel-o com a sua jaqueta azul e o seu collete vermelho, como na noite da Piedigrota, mas o publico chama-a, e acclama-a, e ella sente deslisar-lhe nas faces a chuva das petalas, algumas das quaes rolam humedecidas com uma lagrima! Finalmente a ovação extinguiu-se, é livre, e sae do theatro sosinha, cantando e suspirando ao mesmo tempo:

Finestra bassa e...

Quer chegar a tempo de receber a benção paterna, e vae chorando, chorando, porque se lembra de que se o pae a chamou para lhe assistir ao passamento, ella não terá por quem chamar no leito da morte...