Pois a gloria? Oh! a gloria é só para a vida, é a illusão, a embriaguez, o delirio, e a morte é a realidade, a pedra do sepulchro, o silencio do cemiterio, e o mysterio da eternidade...
A gloria deixou-a ella com as flores que ficaram no camarim, sobre as corôas de louros que dentro em pouco estarão ressequidas...[{78}]
E todavia, á hora em que ella vae chorando sosinha pelo caminho, correm o mundo as italianas, e toda a gente diz—Chegaram!—Viu-as?—Eil-as! e ella vae já muito perto de Napoles, e só com vêr o céo da sua terra teve coragem para enxugar as lagrimas e soluçar:
Finestra bassa e padrona...[{79}]
EMILIO CASTELAR
Sabeis o que é ir correndo mundo, com os olhos fitos n'uma esperança, vencendo todos os obstaculos, dormindo á sombra d'uma arvore á espera da aurora, que é o pharol dos que navegam no mar da vida, deixando-se bater dos temporaes que passam mugindo e alastrando a estrada de folhas e flores? Os viandantes apenas relanceiam um olhar de surpreza ou desdem ao peregrino que vae absorto no seu pensar, e logo desviam a vista a procurar horisonte, sem se importarem mais com a sombra que se afastou, d'olhos baixos, porque o horisonte que procura ainda está longe, porque o céo coberto de nuvens sinistras não côa ainda os fulgores iriados do sol...
A sombra que perpassou por vós, ó caminheiros da vida, levava uma ideia comsigo, um proposito, um desejo, uma esperança.[{80}]
Vós ides com a vossa ideia; elle vae com a sua. Vós procuraes um horisonte; elle procura outro. Vós quereis aproveitar o dia; elle quer esperar a alvorada. Ris-vos! Pois se o sol desencadea das alturas torrentes de luz, dizeis vós, se tudo é azul e oiro no céo, elaboração e abundancia na terra, como é que o peregrino vae a procurar a aurora que se illumina apenas de palidos diluculos, e não aquece o mundo, e não fecunda a gleba, e não doira as aguas? Toda a gente vos dará rasão, porque a humanidade costuma legislar para as circumstancias normaes da vida, para as temperas vulgares que seguem a rotina do vicio ou da virtude, para as abelhas que volitam em inalteravel rotação em derredor da grande colmea do mundo, e não vos obrigam a suppôr o caso extraordinario de desertar uma do enxame e ir procurar em jardins remotos os sucos com que ha-de encher de mel o seu favo. Ah! não riaes. É que o espirito d'elle não foi vasado nos moldes communs do vosso; é que a sua alma não se póde medir pela bitola que põe limites ao vulgar dos homens; é que o peregrino que passou tem o seu ideial n'umas alturas que só a aguia com a sua vista audaz e penetrante logrará devassar. Ride pois.
Chamae-lhe devaneador, utopista, poeta, visionario... Notae porém que nobreza a sua! Vós não vos contentaes com o vosso riso banal, e chegaes ao insulto; elle vae com a sua ideia e com o seu silencio, á procura do seu sol. Vós transigis com todos os accidentes da jornada para vos dardes repouso e conforto; elle não[{81}] entra ás pousadas, porque lá dentro ha rumor de vozes, e cada um dos convivas ha de ter uma opinião que póde não ser a sua. Senta-se pois á sombra de uma arvore, por entre cujas frondes descem as fitas do luar ou as ondulações do sol, porque a arvore póde dar sombra a todos, e porque sobranceiro á arvore fica o céo que é o abrigo universal... Alli tem as suas visões, as suas luctas, alli se retemperam as suas esperanças, e ainda o horisonte tão vasto e tão limpido, sem um contorno que denuncie a architectura dos castellos sonhados na phantasia!