Não importa. Bastará uma hora de descanco physico para reanimal-o. Depois, lá irá pela estrada deserta, rompendo as trevas, expondo a fronte ao açoite dos vendavaes, á procura da sua luz. É o peregrinar continuo do sonhador que não encontra, dizeis vós, a realidade, porque o seu ideal não terá realidade. Ah! vós sabeis lêr no futuro, escrutar os segredos do amanhã, sondar o destino que é intangivel? E elle, o peregrino, tambem se podia rir de vós, porque elle bem sabe que muitas vezes na nuvem rosada do occaso referve latente a tempestade da noite.

Não se ri, não vos insulta: caminha. Mas sabei, porém, que o sonhador que vós chasqueaes é o audaz Colombo que vae á procura d'um mundo novo; o velho Noé que anda recolhendo madeiras para construir a arca em que se ha de salvar no diluvio sonhado; o inquebrantavel Demosthenes que erra de montanha em montanha para afinar pela orchestra das tempestades a[{82}] revolta eloquencia com que ha de oppôr uma enorme barreira ás hostes conquistadoras de Philippe. Todos tres pareciam devaneadores, e todavia a visão de Colombo abrange um hemispherio, e a arca de Noé depõe nas faldas do Arará a familia que ha de ser humanidade, e Demosthenes com um só decreto lucta contra os exercitos de Philippe.

Se o visseis, tambem vos ririeis do louco que andava acordando os echos dos fragoedos para domar as rebeldias da palavra, que devia de ser a primeira espada hellenica. E todavia o devaneador solitario das montanhas mereceu aos athenienses seus irmãos este epitaphio: «Ó Demosthenes, se a tua força fosse igual á tua eloquencia, jámais o Marte da Macedonia haveria submettido a Grecia!»

Demosthenes dos tempos modernos, Emilio Castelar, o sonhador da republica hespanhola, errava desde os primeiros annos na indefessa peregrinação do seu ideial. Quando mais brilhavam de clarões festivos os paços de Castella, e o throno de S. Fernando se recamava de custosos brocados, ia elle mundo alem, de capital em capital, ouvindo os homens e estudando os acontecimentos para tirar horoscopos com a credulidade do sonhador que só vive do seu phantasiar.

Quem no caminho o encontrava, ficava-se dizendo aos companheiros: Visionario! E os companheiros repetiam: Visionario!

E elle caminhava, caminhava, medindo-se com a voz da tempestade, como Demosthenes, e expondo a[{83}] ampla fronte ao turbilhão que arrastava na passagem o sceptro de Napoleão III, a corôa d'Izabel, o manto de Maximiliano, folhas soltas da arvore da realeza...

Corria o mundo, visitava Paris, estudava Roma, e a peregrinação não tinha ainda acabado, e havia tantos annos que partira! D'onde partira elle, o visionario? Da praia do seu pensamento, das regiões da liberdade, da sancta sanctorum onde guardava este evangelho da sua religião politica:

«A liberdade, a igualdade, prégadas no Golgotha, selladas com o sangue de Christo, verdades religiosas no Evangelho, vieram a ser na austera Suissa, n'esses Estados Unidos que se sacrificam pelo escravo, grandes verdades sociaes. O mundo moderno, a civilisação moderna, não farão mais que estender essas verdades e applical-as á vida. São como a lei definitiva da historia. Passarão ás gerações arrastadas pela corrente dos seculos, e não darão de si ideal superior ao ideal da liberdade.»[2]

Para onde ia elle, o sonhador das Hespanhas? Ia para o futuro que devia chegar fatalmente, para a realisação do seu ideal, para as paragens sonhadas que o seu espirito procurava. Acabava de vibrar o seu grito de liberdade no Atheneu de Madrid e ia para a Republica de Hespanha. E, nem por affrontado do caminho, levava o coração cheio d'odio contra os reis. Amava os principes, quando fossem magnanimos; o que elle[{84}] não queria era a corôa, o throno e o sceptro, porque a corôa averga a fronte, porque o throno eleva o homem e o homem é uno, e porque o sceptro fatiga o braço que o sustenta. Queria liberdade, e até para os principes a queria. Por isso, quando a generosa alma do filho de Victor Manoel, espavorida dos horrores da grandeza, quiz sacudir de si os arminhos da magestade, e aspirou á liberdade do seu principado, do seu lar, da sua patria, Emilio Castelar, redigindo a resposta á mensagem d'el-rei Amadeu, generosa como a renuncia do monarcha, fez votos porque a liberdade, que o principe deixára nos seus jardins de Italia, voltasse a sorrir-lhe de novo, deposta a corôa que comprime a fronte...

Quando elle viu descer do throno o ultimo rei d'Hespanha, não parou para dizer—Emfim!—mas antes o ficou abençoando, porque comprehendeu a alma do principe, que não tivera uma palavra d'azedume para os que o elegeram e o desampararam, e porque o julgava tão feliz como elle proprio, porque para ambos havia terminado a trabalhosa peregrinação, a de um pelas regiões do poder, a do outro pelos dominios da phantasia.