E a visão convertera-se em realidade, e a Hespanha, o paiz das tradições monarchicas, patria de reis que chegariam para occupar muitos solios, a Hespanha, dizia eu, deixava vazio o unico throno que tinha, e sem dar tempo a que resfolegasse a ambição dos pretendentes á realeza, arvorava a bandeira da republica sem havêr derramado uma gota de sangue nos despojos da magestade...[{85}]

E os que tinham gritado: Visionario! ficaram olhando estupefactos para o horisonte que no céo da peninsula apparecia refulgente dos clarões matinaes da ideia nova.

E o peregrino despia a esclavina do caminho e lançava ao povo hespanhol, da tribuna do poder, construida pelo povo, as primeiras palavras do crédo republicano, porque, como disse Fenelon d'um periodo analogo da historia grega, «tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra».

Se a eloquencia é chamada a representar um papel activo nos destinos d'um paiz, se ella tem necessidade de ser uma instituição do estado e um meio de governo, é de certo quando se desencadeam todas as forças vivas d'uma raça que readquire a consciencia da sua individualidade e do seu poder. Então á torrente infrene da vontade popular, da seiva que rebenta em cachões do coração do povo, é preciso oppôr a torrente da eloquencia reflectida, a luz d'um grande espirito, que desempenhe a missão do sol, e aqueça a seiva, para que possa fructificar e revigorar todas as sinuosidades do organismo nacional.

A Grecia, no periodo fecundo que seguiu o grande movimento das guerras médicas, quando a alma popular respirava desopprimida do jugo de Pisistrato, teve Pericles que appareceu ao mundo como a mais completa encarnação da força nova, dirigindo com a palavra, durante vinte annos, os destinos do paiz. «Pericles, fallando, diz um historiador francez, tinha a força[{86}] e a serenidade do Jupiter homerico, tal como o cinzel de Phidias acabava de creal-o. O que dominava no orador era um sentimento profundo da gloria de Athenas e do papel que ella lhe havia confiado.»

A Hespanha d'este que póde ser periodo fecundo, á similhança da Grecia, tem tambem o seu Pericles, digno como elle do cognome de Olympiano, cuja palavra alternadamente poderá servir de barreira e de leme, de sol e de tufão, de correcção e de guia.

O mundo antigo costumava vencer com a espada; o mundo moderno deve convencer com a palavra. Convencer é vencer duas vezes: vencer-se a si e vencer aos outros.

Esta dupla missão pertence ao nosso seculo; seja pois a palavra que derrube, a palavra que construa, a palavra que persuada, que arraste, que conquiste. E a Hespanha, no por emquanto breve periodo da sua fórma republicana, já por mais d'uma vez tem carecido da força e da serenidade do Jupiter homerico, já comprimindo a impaciencia popular n'este dilemma pungente: Ou rei ou dictador, já serenando as facciosas tempestades parlamentares, como na sessão do dia 14 de março, com o seu verbo incisivo, pensado e ardente.

Elle tem, como Pericles, o sentimento profundo da gloria d'Hespanha, e é sobre as aguas da democracia que pretende estender a sua vara de Moysés apontando a liberdade nascente.

Trabalhará, fallará, persuadirá. O que elle pede é a liberdade collectiva, a felicidade da sua patria, mas se o[{87}] destino lhe fôr adverso, contentar-se-ha com a liberdade individual, volverá á modesta posição de escriptor, aos seus jornaes americanos, á sua velha propaganda até que resurja de novo a aurora, porque Emilio Castelar morrerá republicano, sorrindo á liberdade.[{88}]