ANIMAES E VEGETAES
Outro dia ia eu passeando ao longo d'aquella extensa avenida do Prado do Repouso, quasi ao anoitecer, á hora em que os visitantes saem e o coveiro entra.
Fui andando, andando, com os vagos pensamentos que dá o estar entre tumulos, e mais d'uma vez me pareceu ouvir murmurar as grandes arvores que ladeiam a avenida pendidas aos sarcophagos.
E insensivelmente me occorreram os versos de Lamartine:
Tout parle. Et maintenant, homme, sais tu pourquoi
Tout parle? Ecoute bien. C'est que vents, ondes, flammes,
Arbres, roseaux, rochers, tout vit! Tout est plein d'ames.
E entrei de contemplar pensativamente as arvores a vêr se lhes encontrava coisa que fosse vestigio d'alma.[{90}] Murmurar, murmuravam ellas; ora se a gente falla porque pensa, claro está que os vegetaes teem sensibilidade e intelligencia.
Depois fui-me lembrando de que Lamartine havia descoberto outrosim que tudo n'este mundo tinha, alem de voz e alma, modo de vida:
... l'abime est un prêtre et l'ombre est un poête