e completei os meus pensamentos pela ideia de que,—assim como os vegetaes possuiam alguma coisa de gente humana, bem podia a gente humana ter alguma coisa de vegetal.

E fortifiquei-me na philosophia de Lamartine tentando averiguar que casta de planta ou arvore seriam algumas pessoas, das que a phantasia me ia configurando alli mesmo.

Ah! bem sei, disse-me eu, tu, uma rapariguinha corada, muito aceiadinha, com dois signaes pretos nas duas faces, tu, que podes ser mestra de meninas ou femme de comptoir nos bazares do Palacio, que nasceste mais para andar em cima d'um prato do que em cima dos tacões, tu, haverias nascido morango, sim, morango, d'aquelles de que se comem duas duzias, pela manhã, antes d'almoço.

E tu, ó rapariga que vendes os morangos, que nasceste na Magdalena, que tens a robustez das organisações retemperadas pelo mar e pelo acre salutar dos pinheiros,[{91}] tu, que tens perna de varina, que vens á cidade por baixo d'um sol abrasador, de modo que chegas á Ribeira cheirando a saude e a sol, tu serias fatalmente, irremessivelmente,—maçã camoeza.

E tu, ó morena de faces tostadas e pennugentas, de boas cores carregadas, cheia, refeita, tu, que não nasceste á beira do mar, mas nasceste á beira da serra, tu nascerias, se teus paes fossem vegetaes, tu nascerias pêcego.

E tu, ó camponeza quarentona, com as tuas enormes argolas a cahirem nos refegos do pescoço, tu, que vens á cidade em dias de romaria com os teus pesados grilhões d'ouro e as tuas grandes soletas de verniz e setim, tu, que és talvez mãe de dez ou doze raparigas-pêcegos, tu serias uma rotunda bolina, não das que os lavradores vendem, mas das que dão de presente ao administrador ou ao juiz de direito.

E tu—ó contraste!—tu, menina esverdeada, que tens escrophulas ou soffres do figado, tu que pareces sahir d'um banho de verdete e que tens uma mamã com o mau gosto de te dar vestido verde, e brincos de esmeralda, tu, pendida do teu camarote, para melhor ouvires o Santos ou a Emilia Adelaide, tu, n'essa mesma inclinação em que te vejo, tu haverias nascido, ó desventurosa menina—como isto é triste!—tu haverias nascido—vagem.

E tu, ó borracho encartado, que tens o unico modo de vida de passar os dias nos armazens, que trazes a cara colorida dum vermelho-roxo que dá o abuso do[{92}] vinho, tu, que és tão inutil para o mundo como o é a amora para o lavrador, tu apparecerias n'este mundo, se teu pae se chamasse Silva,—feito amora.

E tu, que nasceste fadado para seres caixeiro de teu pae, que poderias chegar a aperfeiçoar o artefacto com que elle se enriqueceu se não desses a escrever versos e a lêr poetas allemães, a pintar olheiras, a fazer-te triste, a andar com a cabeça pendida, a escrever o teu artigosinho para o jornal, tu, que andas curvado a procurar pelas ruas os pensamentos que os outros deixaram, tu, se não fosses o que és, meio litterato e meio negociante, tu serias o que devias ser—chorão.

E tu, que és alto, magro, escuro, que trazes bengalão e não bates em ninguem, que serves quando muito para fazer inflammar a gente, tu nascerias pinheiro, e darias pinhas, que são boas para atear o fogo.