E tu, ó calumniador insupportavel, que appareces entre os homens para aborrecel-os e para incommodal-os, tu, de quem todos fogem e que só serves para incommodar e aborrecer, tu, se nascesses n'um jardim, serias com toda a certeza—arruda.
E tu, ó feia de boas qualidades, mal feita de corpo e bem feita da alma, tu, que não tens graça propria e soccorres a desgraça alheia, tu nascerias marmello, fructo pouco sympathico, de que se faz a marmellada, que é realmente muito peitoral para os que soffrem.
E tu, ó parasita, que andas sempre encostado aos outros, que te vaes mettendo á viva força por entre os que teem um vintem de seu, que nos vaes perseguindo[{93}] á medida que te vamos enxotando, tu bem sabes o que serias, ó parietaria social, tu serias—hera.
E tu, que és anguloso, que trazes sempre o casaco a dançar nas protuberancias osseas e os joanetes a luctar com as botas, tu, que és uma pessima figura e talvez uma boa alma,—tu nascerias pêra de sete cotovellos.
E tu, ó languido Romeu, que estás sempre doente, que não pensas em ganhar a vida porque teu pae tem bom emprego, que precisas de muito resguardo, segundo diz a mamã, e que passas quasi todo o anno mettido no mar, a conselho do medico, tu és para a sociedade o que a alface é para a mesa,—uma coisa molle e transparente, que não fortalece o estomago e que se come por luxo—portanto tu serias—alface.
E tu, ó aborrecido grosseirão, que nos deixas sempre indigestos da tua presença, que só és supportavel quando estás ao pé de tua irmã, que são uns bons trinta annos, e de tua filha, que são uns bons vinte contos, tu serias pepino, sim, tu serias pepino, fructo que só se póde tolerar, em salada, com azeite e vinagre á mistura.
E tu, ó pequenina graciosa, que pareces contar eternamente vinte annos, que dás á gente vontade de te passear ao collo em vez de te passear pelo braço, que tens não obstante a elegancia da tua pequenez, tu serias forçosamente, pequenina e gentil como és,—tu serias—avellã.
E tu, ó conductor de mala-posta, queimado e musculoso como um athleta, tu, que atravessas serras e serras[{94}] ao pino do meio dia, e estás sempre apto para o serviço, tu és a uva da humanidade, porque a uva tambem vive entre fragas, e recebe côr do sol que apanha, e tem o prestimo que tu lhe costumas utilisar muitas vezes ao dia,—e por isso, ó conductor de mala-posta, tu, a seres vegetal, serias—uva!
E tu, ó menino que cursaste sete annos o lyceu, e incommodaste os professores com grandes empenhos e teus paes com grandes despezas, para ao cabo de sete annos de luctas e dispendios alcançares unicamente certidão de exame de francez, tu, ó inutilsinho, ó pedantesinho, que te dás a importancia da tua ignorancia, sabes como se chamaria teu pae, se fosse arvore, e como te chamarias tu, a seres filho de teu pae? Pois bem, eu t'o digo, para que o fiques sabendo, d'uma vez para sempre, entende bem,—d'uma vez para sempre,—elle chamar-se-ia Carvalho e tu serias—bugalho.
E tu, ó eterno pretendente, que vives aos pés dos ministros, que te dás bem na humidade das secretarias, que encaras como modo de vida o ser pretendente, que não serves senão para seres o que és,—que te parece que serias se a philosophia de Lamartine não fosse apenas um devaneio poetico? Tu serias tortulho.