E tu, ó agiota, ó fraca figura que tens a força do dinheiro, que és preciso para tudo, que tens o que dá luz ao homem e sabor á vida, que tens na tua algibeira o azeite com que se tempéra e allumia a existencia, tu nascerias—azeitona.

E tu, ó irascivel, ó atrevido, ó petulante, que pareces[{95}] arder e fazes arder a gente, que te dás a conhecer em toda a parte pela rudeza agreste de teus gestos e palavras, tu, a não seres o petulante, o atrevido, o irascivel que és,—tu serias malagueta.

E tu, ó espirito lucido e malicioso, que tens graça, que tens alegria, que dás colorido e relevo ás mais relamborias semsaborias, tu que és a animação e a vida, que desembotas o paladar e abres o apetite, tu nascerias—pimento.

E tu, ó alma angelica, ó pallida enfermeira do filho moribundo, ó nobre coração que enthesouras todas as riquezas n'esse cofre em que se torna o coração da mulher quando chega a ser mãe, ó santa, ó mãe, tu serias o que de mais delicado póde haver entre as flores,—tu serias—lyrio.

E tu, ó irmã carinhosa, formosa e boa, terna e gentil, mixto de innocencia e formosura, ó pura amiga, ó doce amparo, que te escondes do mundo se nós soffremos, e que lhe sorris se o sol da felicidade nos doira a vida, tu serias, porque o és,—sensitiva.

Ó insipida menina, que dizes não meu senhor, sim meu senhor, que não sabes sorrir, que não sabes fallar, que não sabes viver—tu serias—lima.

Mas teu primo, aquelle azougado rapaz, que é a alegria da tua casa, que está sempre a metter-te á bulha, e que parece ter sido dado á luz por tua tia para compensar o disparate que tua mãe fez gerando-te, teu primo, que deve ter um appellido similhante ao teu, teu primo seria—limão.[{96}]

E tu, ó filha do burguez, que não vaes ao theatro, porque teu pae só gostava da Degolação dos innocentes, e acha estes dramas modernos pataratas, tu, que não és gentil, mas que pezas cincoenta contos de reis, tu, que tens muito que comer em... dinheiro, tu, ó invejavel burgueza!—tu serias melancia.[{97}]


Á ACADEMIA DE COIMBRA