Ao fundo da sala, erguidas sobre estrado, e ambas sentadas, deslumbraram-me duas mulheres. Ao nivel do estrado ondulavam as cabeças dos admiradores. O fumo dos charutos, que caprichosamente se derramava no ar, fez-me lembrar a vaporação d'uma pyra. Insensivelmente tirei o chapéo. Das mulheres, a mais alta, mandou-me cobrir em francez. Eu cobri-me em portuguez. A mais gorda mandou-me sentar, e, a esse tempo, já eu estava tão enleiado, que não sei bem se me mandou sentar em francez, se em portuguez. Eu sentei-me universalmente,—como todos.
Sempre lhe quero dizer, meu querido Julio, a razão do meu enleio. O Julio fallava apenas da Giganta, e eu fui encontrar, na saleta da rua de Santo Antonio, duas mulheres: a Giganta e a outra.
Foi uma agradavel surpreza o poder lêr dois livros pelo preço d'um só. Achei então que o Michel Levy estava sendo caro, vendendo o volume a duzentos e cincoenta. Esta litteratura viva, muito mais agradavel á vista, pareceu-me economica. Depois d'estas ponderações entrei de examinar as mulheres. Ergui o meu olhar[{130}] á altura de dois metros e quinze centimetros, e encontrei a cabeça da Giganta—mademoiselle Rose. Depois desci com a vista até encontrar as quatorze arrobas da outra,—mademoiselle Claire. Estive hesitando entre as arrobas e os metros, e decidi-me pelo systema decimal. Eu só acredito que uma mulher é franceza, sendo alegre. Ora mademoiselle Rose estava cantarolando com coquetterie o Orpheu nos infernos; e mademoiselle Claire desfolhava tristemente uma flôr. Esta circumstancia levou-me a perguntar-lhe se era franceza. Respondeu-me mademoiselle Rose que era sua irmã, e do mais que me disse deprehendi que eram ambas francezas, que tinham quinze irmãos, o mais novo dos quaes estava sentado ao piano.
Pedi logo para vêr os outros quatorze. Mademoiselle Rose sorriu do meu equivoco, e respondeu-me que eu teria de navegar o Atlantico para os ir vêr a França. Consultando o programma, que me deram á entrada, e o folhetim do Julio, vi que era verdade ser mademoiselle Rose uma mulher d'espirito. Depois, como mademoiselle Claire se zangasse com um admirador que lhe estava bulindo no pé, vi que o programma era tambem verdadeiro na parte que lhe dizia respeito: tem bellas maneiras e todas as qualidades proprias do bello sexo.
N'isto erguem-se ambas ao mesmo tempo, e annunciam explicação. Os espectadores da geral arregalaram os olhos. Mademoiselle Rose tomou a mão para fallar, e um espectador da superior atalhou do lado:
—Parlez en français.[{131}]
Ella sorriu, e disse em francez:
«Mrs. e M.mes, nous sommes françaises, nées à Paris; ma soeur (Claire) est agée de dixhuit ans et moi (Rose) de vingt ans.
«S'il y a parmi l'honorable societé une persone qui desire connaitre la différence de taille, elle peut s'approcher. Vous pouvez voir que nous avons la main et le pied petits por être ma soeur aussi grosse, moi aussi grande, et le molet proportionné.»
(Reproduzo fielmente o francez... d'ellas.)