—Olha que ainda é maior do que o castanheiro de Quintães!

Começou então a sahir o publico da geral, e a madame da porta, que é cunhada da Giganta, a dizer de cada vez:

Il y a du monde.

D'uma vez olhei, e vi entrar um anão. Que mundo tão pequeno! Reconheci que não me devera ter orgulhado da phrase, e entrei de admirar a coragem do anão que, voluntariamente, se expunha a ser vencido por uma mulher. E eu, interposto áquellas antitheses, lembrei-me de que a humanidade era a rethorica da creação, e de que da variedade das figuras procedia o que no poema da vida ha de recreativo.

Em todo o caso achei muito melhor ser gigante, porque sempre se vae vivendo á custa dos... pequenos. E depois, aquelle estrado em fórma de solio dava a ideia de realeza. Realeza d'estatura, é certo;—com prós e contras, como todas.

Ella alli está, pensei eu, admirada, festejada, galanteada, recebendo flores e rebuçados, tão feliz, tão feliz, que tem sempre vinte annos! Mas tambem, horror! nascer uma mulher gentil, elegante, coquette, e viver sentada, entre os seus pannos vermelhos, sem poder espanejar-se[{133}] ao sol no verão, sem poder molhar os pés no inverno! Molhar os pés, digo eu, porque isso mesmo, que é para nós um desastre, seria para mademoiselle Rose uma deliciosa surpreza! Tem corrido a Europa sentada, e dizem-me que tenciona ir agora sentar-se á America. O mundo é para ella uma cadeira. Se algum dia quizer fazer exercicio, a conselho dos medicos, e subir ao pico do Himalaya, para admirar o mundo, ella, que tem sido admirada pelo mundo, e vir ao sopé da montanha uma tribu do Indostão ou uns pastorsitos de Thibet, dirá logo voltando-se para o irmão:

La chaise, mon frére, il y a du monde.

As mulheres vão ao theatro, passeiam, dançam, e ella, tendo talento, como realmente tem, vive sentada, a repetir sempre a mesma coisa, victima da sua propria realeza! Como não póde passear ella mesma, vae passeando em photographia, e espalhando o seu retrato.

Um dia bem póde ser que se sinta incommodada a ponto de ter inveja da sua photographia, que tenha um ataque nervoso por querer sahir, e que o medico declare que precisa d'andar durante vinte e quatro horas. N'esse dia estará perdida na terra onde estiver, porque todos a verão de graça, que é justamente a maneira porque ella não quer ser vista. A sua cadeira perderá todo o prestigio, e desde então a cadeira da Giganta ficará valendo tão pouco como a Giganta. Uma e outra perderão todo o mysterio. Mysterio, digo eu, porque seguramente a Giganta o tem.

Quando é que ella chegou? Quem a viu descer das[{134}] Devezas, atravessar a ponte, passar na rua de S. João, das Flores, subir finalmente a rua de Santo Antonio? Como é que ella entrou por aquella porta tão pequena,—tão pequena, que muita gente cuido eu que dará de vontade os dois tostões, não tanto para vêr a Giganta, como para averiguar o modo porque ella entraria? Quando partirá? Quem a verá? Não se sabe. Ella tambem pouco sabe do mundo, a não ser que no mundo ha dois tostões, e que o mundo gosta das photographias, e dos originaes tambem.