D.—(á parte) É muito! Tenho de dar outros quinhentos. (Alto) Não lhe convém ainda? Acha cara a felicidade que lhe custa quinhentos mil reis! Que largueza d'animo a sua!
R. (apaixonado)—Não, vou já, Dolores. Á noite fulgirá o collar no seu seio, e as estrellas desmaiarão no céo. Não será mais formosa a huri quando as exhalações calidas da noite...
D. (com aborrecimento)—Quer que lhe faculte o adresse do meu ourives? É de suppôr que a imaginação lhe anniquille a memoria.
R.—Até já, Dolores. Vou buscar as estrellas para completar o meu céo de felicidade. (Sae.).[{151}]
Scena VII
DOLORES (olhando para a porta)—Bonita figura... a do homem! O amor dá azas. Voará. Dentro em pouco estará aqui. O collar será meu. Deital-o-hei ao pescoço. Mirar-me-hei ao espelho, e intimarei o snr. Raymundo Savedra a que saia para nunca mais voltar. E depois um collar d'um conto de reis não é caro por metade do preço. (Chegando á janella) Já desappareceu. Não tardará. O caso é que estou impaciente pelo desfecho d'esta pequena comedia. (Tocando a campainha; ao criado) Já vieste ha muito? Ficou entregue? (O criado bole affirmativamente a cabeça) Está bem; vae-te. Mal persintas o snr. Raymundo Savedra, avisa-me. Não sei o que hei-de fazer! Ah! o meu piano! (Senta-se arpejando e monologando) E dizerem que a felicidade é isto! Quantas vezes m'o não teem dito! Se soubessem como estou aborrecida agora! E as minhas canções! Vamos, Marcó, desafia-te a ti mesma; vence o teu proprio fastio. Póde ser que venhas a amar um dia; entôa o teu cantico d'esperança! Não, não posso! Que demora!
Scena VIII
O CRIADO (com uma carta)—Da snr.ª baroneza de Faiães.
DOLORES (impaciente, levantando-se do piano)—Vejamos. Que terá a baroneza ainda que dizer-me![{152}] «Snr.ª Acabo de escrever a meu irmão desenganando-o. Antecipei-me, porque lhe seria menos doloroso o golpe vibrado por mim.» (O criado: Chega o snr. Raymundo Savedra) DOLORES: Ah! (escondendo a carta).