O que é feito do Moienes, do Morte-scaloia, do Pintasilgo, do Pau-preto, do Cacaracá? Desappareceram. Demoram-se apenas um segundo para entregar o jornal e receber o dinheiro. Resta unicamente o José Custodio, o melhor typo da collecção, sentado no passeio, repousando a perna manca, a lêr o jornal atravez da sua famosa luneta. É um grande egoista o José Custodio.[{23}] Antes de dar aos outros, quer para si. E depois fia-se no seu talento comico, e sabe, dando ouvidos ao orgulho, que os outros não vão mais depressa por ir primeiro. Basta-lhe apregoar para vender. Estão agrupados os pedreiros a almoçar. O José Custodio vae mancando e gritando:

—Licença que veio do governo para os côdeas usar bigode!

O sapateiro, quando elle passa gritando, berra de dentro. O José Custodio esbofa-se a apregoar:

—É a morte d'um sapateiro que morreu entalado com um pino!

O José Custodio é o epigramma, a satyra, a mordacidade vibrante. Por onde elle passa, incendeia o rastilho da curiosidade. Até certo ponto, encontrou um rival no Jeronymo, que tinha d'engenhoso quanto o José Custodio tem de mordaz. Eram os pimpões do rancho; reinadios como nenhum! O Jeronymo affeiçoou-se a um cão, ou o cão se lhe affeiçoou a elle. Comprou um carro de pau, que o fiel mollosso tirava, e onde levava o jornal; a ideia do vehiculo suscitou-lhe a tentação de negociar em larga escala. Começou a vender por sua conta folhetos e repertorios. Era um andar que luzia! Um dia aborreceu-se de ser feliz e desertou: o cão desertou com elle. Mas que imaginoso homem o Jeronymo! No tempo da guerra franco-allemã arranjou tres canas com encaixes de folha. A ultima tinha no topo uma campainha, um gancho e um saquitel que se moviam por correia. Sahia de noite o supplemento. Batia[{24}] com a cana na vidraça, a campainha tocava, no gancho ia o supplemento, o freguez abria a janella, e o Jeronymo descia o saquitel que trazia dentro dez reis.

Vejam que talento este! Ó prodigio!

Um cego muito conhecido, que ainda não encontrou cão fiel e precisa de ganhar a vida, assalariou um rapasinho que o conduz. O cego apregoa, e o rapasinho recebe o dinheiro para vêr se é falso.

E é assim que o jornal, que espalha a ideia, ampara a cegueira d'uns, a vida d'outros, e a pobresa de todos.

Olá! São elles, os gavroches, que pedem o jornal d'hoje. Espera-se unicamente pelo folhetim. Pois bem, o folhetim ahi vae.[{25}]